sábado, 20 de maio de 2017

Silvio Campos: Ser Punk de "Buracaju"

Em tempos de mortos-vivos vampirescos no comando da república, ressucito esse quase-finado espaço virtual para fins de compartilhamento de meu Trabalho de Conclusão de Curso.
Ele tem 138 páginas, então melhor não escrever muito e poupar o tempo do leitor ao que interessa...
Eu só queria dizer que, além da graduação em música e aprendizado em geral, pessoalmente foi de extrema importância essa aproximação forçada via academia ao universo de Silvio e do punk/ hardcore local. Devido talvez às minhas preferências estéticas dentro do universo do rock, faltei vários eventos importantes, deixando de testemunhar a evolução da Karne Krua, e a movimentação das várias outras bandas do Silvio.
Tudo corrigido agora: meu currículo, meu entendimento do real valor e do papel que Silvio desempenha na cadeia produtiva da música em Sergipe, e meu gosto estético também - a Karne Krua é mais do que nunca minha banda hardcore favorita. Para sempre.

Aqui: https://tinyurl.com/lessarv

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

A Nice Pair


Pan era um deus da mitologia grega. Sua figura mezzo bode, mezzo humana é para sempre associada àquela flautinha... a flauta de Pan. No fim do século XIX houve um crescente interesse em reviver esse mito por parte de escritores e pintores. Isso perdurou até a modernidade do Séc. XX, representada pela referência em um dos símbolos do império Disney (Peter Pan, naturally), e na inclusão de figuras pan-like em um dos segmentos do clássico Fantasia (1940), também do velho Walt.
Ainda em 1908 um cara chamado Kenneth Grahame escreveu um livro de nome "The Wind in the Willows" (O Vento nos Salgueiros), um clássico da literatura infanto-juvenil. Este livrinho era um dos favoritos de Roger Keith Barrett. "The Piper at the Gates of Dawn" é o título do sétimo capítulo de Wind in the Willows, e o 'flautista' do título refere-se a Pan.

Uma das referências que o Pink Floyd faz a Syd na música "Shine on Crazy Diamond" é essa mesmo: "You Piper". Ele foi o Pan para o Floyd. Ao tocar sua 'flauta' a mágica foi criada na forma de uma das maiores e mais aventureiras bandas da história do rock. Acima do rock, na verdade, o Floyd é daquelas bandas que criaram uma estética própria, partindo de alguma raiz tradicional (blues, folk, etc.) criando uma identidade sonora única como fizeram os Byrds, Beach Boys, Beatles ou Hendrix. Se ouvirmos atentamente toda a discografia da banda, fica claro que a sonoridade do disco de estreia é de verve única. Mesmo "Take up thy stethoscope and walk", de Roger Waters, soa como uma música de Syd - a guitarra dessa música é a mais frenética do disco.


Tocando juntos desde 1962, os três estudantes de Arquitetura Roger Waters, Richard Wright e Nick Mason, mais o estudante de artes Roger 'Syd' Barrett adotaram o nome The Pink Floyd a partir de 1965. Logo se infiltraram no crescente movimento underground londrino representado por bandas como The High Numbers (que virou The Who), The Kinks; ou por coletivos das artes plásticas como os holandeses do The Fool. A banda começou a criar um nome no circuito justamente por uma associação a artistas visuais que criavam projeções psicodélicas durante os concertos, o que imediatamente associou o som do grupo a essa nova onda, impulsionada pelo consumo de ácido lisérgico (não proibido na época), o qual logo virou rotina para nosso pan-Syd. Finalmente se profissionalizando, o primeiro single foi lançado em março de 1967: "Arnold Layne" é uma canção pouco convencional, que de cara dava uma boa ideia dos talentos de Barrett como compositor, letrista, guitarrista e vocalista. Sua letra sobre um personagem "baseado em fatos reais" travesti que tem como hábito roubar roupas de baixo femininas não pegou bem com a conservadora BBC e foi prontamente banida das rádios. Porém, o estrago já estava feito. O lado B, "Candy and a Currant Bun" tinha como título original "Let's roll another one", em uma clara referência à maconha. O próprio Waters convenceu Syd a mudar o título; ainda assim os executivos da gravadora deixaram passar o verso "Oh don't talk with me/ Please just fuck with me". Bem mais obscura que Arnold Layne, que merecidamente foi incluída em diversas compilações, como "Echoes", de 2001, "Candy" foi prejudicada pela produção. Até Pete Townshend já foi citado dizendo que o Floyd (de Syd) em disco não traduz o que a banda produzia ao vivo (e isso não foi um elogio).

Bem melhor se saiu o segundo compacto, "See Emily Play" ("Scarecrow" no lado B), tanto em termos de produção (bem mais elaborada que Arnold) quanto em posição nas paradas. Também conhecida à época como "Games for May", See Emily Play foi lançada em Junho do 'verão do amor', um mês antes da estreia em LP, e é tão boa que foi colocada como abertura da versão americana original do debut Piper at the Gates of Dawn. A capa do single foi desenhada por Syd Barrett, com o 'The' já retirado do nome!

Com as boas vendas, o quarteto recebeu 5.000 libras da EMI para gravar o disco de estreia, com horas ilimitadas e total liberdade no estúdio, sob a condição de trabalharem com o confiável Norman Smith. O que eles não sabiam é que longe de ser um líder convencional, Syd tinha sua própria ideia de como se gravar um LP. De cara, gravaram "Interstellar Overdrive" uma jam instrumental que já editada passa dos 09 minutos. A fúria sônica das guitarras de Syd, aliada aos teclados viajandões de Richard Wright são o grande barato da música, que ainda inclui um efeito de pan (nota do autor: essa conexão não foi intencional rs.) na volta ao riff principal; isso me lembra o fusca do Snoozer Clínio, no qual ouvíamos isso em alturas não recomendadas por profissionais de saúde, e o efeito causado pela forma circular do "Azulão" fazia o som literalmente rodar sobre nossas cabeças. Bons tempos...

"Matilda Mother" foi também das primeiras trabalhadas pro disco. Uma versão "early take" dessa música cantada por Richard Wright foi incluida na compilação An Introduction to Syd Barrett, produzida por David Gilmour em 2010 (e neste post também!). As letras da estrofe foram completamente modificadas na versão final, mantendo-se apenas o refrão (cantado por Syd).


The Piper At The Gates of Dawn, o disco, é feito de altos e altos. Não há uma música sequer em que a banda  não soe inovadora por um ou outro aspecto. Até um filler como "Pow R. Toc H." possui achados interessantes se ouvida com atenção. A abertura com "Astronomy Domine" é de uma genialidade sem fim. A métrica quase infantil, como alguém interpretando a leitura de um manual de bruxaria enquanto bate os pés no chão. É também o marco zero do space rock: antes da metade da música uma pausa é preenchida apenas por uma nota da guitarra, com os instrumentos flutuando de volta pro arranjo. A voz do empresário do grupo soa como algo que você ouviria em uma viagem interplanetária, e isso ajuda no clima, assim como o uso de eco e efeitos processados. É bom lembrar: o acordo da gravadora era 'liberdade total'... "Lucifer Sam" também possui essa qualidade psicodélica, com efeitos bastante interessantes. O órgão é, como sempre, responsável por boa parte da identidade sonora do Pink Floyd. "Flaming" é outra pérola, novamente com algo de infantil em como Syd canta 'yippee, you can't see me...'.

No lado B, com boa parte tomado por "Interstellar Overdrive" sobram 04 musiquinhas: "The Gnome" é uma fofura de canção-de-gnomo. A letra de "Chapter 24" é baseada no referido capítulo do I Ching, o 'Livro das Mudanças". Em "The Scarecrow" há um revezamento de fórmula de compasso que a torna difícil de bater o pezinho, exceto no trecho final, quando um violão com volume mais alto do que estávamos ouvindo puxa um riff repetitivo com um violoncelo fazendo um bordão aliado ao riff do baixo, encerrando a música em fade-out. Encerrando o álbum, "Bike" desafia qualquer músico a adivinhar a fórmula de compasso, que obedece à métrica da letra brilhantemente arquitetada por Syd. E o final, a "sala de temas musicais" da letra toma forma numa cacofonia, como que indicando ao ouvinte que dessa banda você pode esperar tudo (e é exatamente essa deixa que o futuro Floyd poria em prática a partir do ano seguinte).

Último compacto lançado pelo Floyd em 1967, "Apples and Oranges" é aquele em que Syd canta "I'm feeling very Pink". A gravação e a sonoridade do lado B "Paintbox", de Wright, é bem mais limpa e não parece ter vestígios da presença de Barrett na gravação. A essa altura, David Gilmour já andava substituindo o Syd, que por vezes ia pros shows porém permanecia imóvel... O quinteto chegou a posar para fotos, mas internamente Syd nunca voltaria a trabalhar normalmente como membro do grupo, até ser chutado da banda após o lançamento do segundo álbum....



O Floyd de 1968 a 1970 é um reflexo do que aconteceu com Syd. Afinal ele não era 'só' o fundador e líder, como autor de 95% das composições do grupo. O esforço de superação do grupo consiste numa fase errática, que não agrada todo o tipo de ouvinte, fazendo a cabeça daqueles que apreciam experimentações viajandonas, se é que você me entende... Mas antes de chegar em suítes de 20min eles haviam de provar a si mesmos e ao mundo que conseguiriam sobreviver 'apesar' de Barrett. Em "A Saucerful of Secrets" ele ainda é da banda, apesar de ter uma única contribuição ("Jugband Blues"). E mesmo tendo uma óbvia influência em "Corporal Clegg" (alguém podia jurar que é a voz de Syd no refrão), o próprio Barrett desmentiu nos anos 70 ter participado da gravação dessa música de Waters, cuja letra é a primeira que faz referência à guerra, tema recorrente para o baixista, uma década na frente.

Também é de Roger Waters a introdução do álbum: "Let there be more light" começa com um riff do baixo, e é a primeira música do Floyd com vocais e solo de guitarra de David Gilmour. Ainda de Waters é "Set the controls..." que, assim como a faixa título e o B-Side "Careful with that axe, Eugene" sairiam mais tarde em versões ao vivo no Ummagumma de 1969 e no home video Live at Pompeii, com show de 1971. Ou seja, dá pra concluir que o som que o quarteto Waters-Wright-Mason-Gilmour apostava como o som do Floyd pós-Barrett era esse mesmo: viajandão, calcado em longas jams e por vezes barulhento.
As duas composições de Richard Wright são as mais calmas e também as mais ricas melodica e harmonicamente: "Remember a day" e "See-saw".

Também é de Wright a autoria do single "It would be so nice" que, assim como "Point me at the sky" foram solenemente ignorados na compilação Relics, de 1971, ao passo que seus lados B foram incluídos. "Point me at the sky" é considerada pela banda algo de se ter vergonha, e realmente não é uma música muito memorável, a única coisa que me chama a atenção é o baixo pesadão, pouco comum no som do Floyd. Já "It would be so nice" é uma pérola, e seu refrão é a coisa mais Syd Barrett de um Pink Floyd sem Barrett, e é bem provável que essa tenha sido mesmo a intenção, quando o compacto foi lançado todo o material de imprensa era o do Floyd com Barrett - ele inclusive figura na capinha...
 "Julia Dream" é uma musiquinha bucólica, daqueles tipos que Roger Waters retomaria em Ummagumma: voz e violão, além de uma flautinha. A já citada "Careful with that axe, Eugene" tem em sua versão de estúdio uma maior presença do teclado improvisando, a música não tem ainda o ataque característico da versão ao vivo e os berros de Roger é uma coisa mais de fundo, o que particularmente acho que funciona mais...

Em tempo: "A Nice Pair" foi o nome de um LP duplo lançado nos anos 70 que reunia os dois discos deste post, sem os compactos, claro.

Seguem os tracklists:

The Piper at the Gates Down (2011 Remaster) + 1967 Singles

01 Astronomy Domine
02 Lucifer Sam
03 Matilda Mother
04 Flaming
05 Pow R. Toc H
06 Take Up Thy Stethoscope and Walk
07 Interstellar Overdrive
08 The Gnome
09 Chapter 24
10 Scarecrow
11 Bike
12 Arnold Layne (Single A-Side)
13 Candy and a Currant Bun (Single B-Side)
14 See Emily Play (Single A-Side)
15 Matilda Mother (Alternative Version)
16 Apples and Oranges (Single A-Side)
17 Paintbox (Single B-Side)
+ scans


All songs by Syd Barrett, except tracks 05 and 07 (Barrett/ Waters/ Wright/ Mason), 06 (Roger Waters) and 17 (Richard Wright)

Download link

A Saucerful of Secrets (2011 Remaster) + 1968 Singles

01 Let There Be More Light (Roger Waters)
02 Remember a Day (Richard Wright)
03 Set the controls for the heart of the sun (Roger Waters)
04 Corporal Clegg (Roger Waters)
05 A Saucerful of Secrets (Waters/ Wright/ Mason/ Gilmour)
06 See-Saw (Richard Wright)
07 Jugband Blues (Syd Barrett)
08 It Would Be So Nice (Richard Wright) (Single A-Side)
09 Julia Dream (Roger Waters) (Single B-Side)
10 Point me at the sky (Waters/ Gilmour) (Single A-Side)
11 Careful with that axe, Eugene (Waters/ Wright/ Mason/ Gilmour)
+ scans


Download link

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Backs To The Wall

Em tempos em que o barato (não nos preços) é comprar luxuosos LPs em prensagens novas de alta fidelidade, só mesmo essa massiva campanha de gravadoras multinacionais relançando discografias completas das mais queridas e amadas bandas de rock mundial para aquecer o mercado de CDs (tido como decadente há uns bons 05 anos atrás). Uma das primeiras a ter sua discografia remasterizada e embalagens 'repackiadas' foi o Led Zeppelin (Atlantic). Ainda não estava em voga o digipack, que aproxima o CD da experiência única de se manipular um LP. Uma década depois a EMI jogou duro e finalmente atualizou a discografia de um campeão de vendas: os The Beatles! Não só o som foi melhorado, mas as embalagens deram aquela sensação de justiça sendo feita à grandiosidade da música. Os fãs agradecem, o departamento de vendas das lojas também! Rolling Stones e Bob Dylan vêm aos poucos explorando relançamentos que fazem mesmo um cara que já tem uma edição qualquer do LP e o CD lançado na década de 90 (com som pífio comparado ao LP original) vá lá em compre pela terceira vez o mesminho disco, mesmo que não possua nenhum 'extra'. A discografia dos Doors é um caso à parte: a Elektra não só capricha nos encartes e na remasterização dos clássicos álbuns com Jim Morrison, mas há inserções de conversas de estúdio antes e depois das músicas, faixas bônus aos montes em cada disco, e "Light My Fire" com a rotação consertada (é, o que ouvíamos anteriormente era a master feita a partir de uma fita acidentalmente acelerada). No caso da EMI - os supracitados Beatles e a recém lançada campanha "Why Pink Floyd" com a gigantesca caixa "Discovery" -, os relançamentos apresentam os tracklists idênticos aos originais. Tiro certeiro pro 'hardcore fan' não se desapontar, afinal o mais importante fator em qualquer disco é o som, e esse é o grande trunfo desses 'remasters', assim como nos dos Beatles (seja estéreo ou mono). O segundo fator mais importante é a apresentação do material, e se nos besouros já tava lindo, com o Pink Floyd é um passo adiante. Especialmente nas edições "Experience" e "Immersion" de três álbuns-chave do quarteto inglês: Dark Side of The Moon, Wish You Were Here e The Wall, também relançados em vinil. As  edições "Discovery" também não deixam a desejar. Embalados no plástico nas vitrines parece fino demais, mas justiça seja feita, o digipack usado é capa dupla e os encartes contém imagens das artes originais retrabalhadas, fotos, letras e ficha técnica completa. Não dá pra querer mais que isso, né...

Ao pensar com meus botões que discos do Pink Floyd eu daria prioridade pra adquirir, certamente escolheria o álbum de estreia (The Piper at the Gates of Dawn), que amo de paixão, o Meddle e o Animals. Também tem o A Saucerful of Secrets, Ummagumma e o Wish You Were Here, mas em nenhum momento o The Wall figurava em qualquer 'top 5' que eu fizesse sem pensar muito. Assim como alguns clássicos do Zeppelin, Deep Purple e Sabbath, o The Wall é daqueles discos que ouvi tanto na adolescência que estava dentro de uma gaveta (um muro?) cuja importância eu subestimava. Eu sequer o havia ouvido na antiga versão em CD. Só conhecia mesmo o velho LP CBS de meu irmão e, claro, o genial filme de Alan Parker que mune o espectador de vívidas imagens para sempre indissociáveis do áudio original.

Eis que em uma recente ida a Itabaiana e visita à loja TNT Rock com pouco tempo disponível para escolher entre vários títulos apetitosos, me deparo com a edição "Experience" do disco-do-muro. O CD é triplo, contendo o disco duplo original, mais o extra intitulado "Work in Progress", contendo não as demos de Roger Waters - presentes nos extras expandidos da caixa "Immersion" - mas já as sessões de estúdio com a banda ainda encontrando as melhores soluções não só nos arranjos (algumas músicas contém diferenças gritantes), mas também no ordenamento das faixas que, em se tratando de The Wall, faz toda a diferença!


O disco duplo original é uma obra ímpar não só na discografia do Floyd, mas de uma visão que não se encontra em nenhuma outra banda. Pensei, pensei, e não achei absolutamente nada parecido. Mesmo sem ter havido filme (lançado em 1982) é uma narrativa completa, em 02 atos, com personagens, efeitos sonoros (altamente valorizados na remasterização), e a mais emblemática performance de Roger Waters que, pra quem não sabe, é o grande gênio por trás da concepção do álbum, e canta diversas músicas de maneira tão visceral que você não acredita que ele é apenas o vocalista do Pink Floyd, mas ele é o próprio Pink, personagem principal da trama narrada em The Wall. De fato, a gênese do álbum partiu da própria experiência de Roger vendo os shows de sua banda se transformarem em um mega evento, tocando em estádios e perdendo o contato próximo aos fãs de outrora. A catarse veio após um show da turnê do disco anterior, Animals, onde Rogério Águas cuspiu em um fã que havia furado o bloqueio dos seguranças para poder subir no palco, berrando o quanto amava o Pink Freud. Adicione a essa egotrip sua história de vida pessoal, tendo perdido o pai para uma guerra, e o amigo e líder dos primódios do Floyd, Syd Barrett, para a loucura causada pelo uso abusivo de drogas alucinógenas.


Listo aqui o que há de realmente diferente e interessante no CD extra: o "prelúdio" (a única demo original de Roger inclusa) que é uma colagem de sons tirados de gravações da Vera Lynn - que viraria tema para uma composição original incluída no LP ; "Teacher Teacher" (retrabalhada como "The Hero's Return" em The Final Cut de 1983), "Sexual Revolution" e "Backs to the wall", faixas deletadas do disco original, lançado em novembro de 1979, além das duas contribuições de David Gilmour (fora "Run Like Hell") com trechos inteiros completamente diferentes: "Young Lust" e "The Doctor" (que virou "Comfortably Numb"). Isso não quer dizer que as outras faixas são dispensáveis. É incrível como The Wall é um trabalho onde os detalhes são tão importantes quanto as melodias ou solos de guitarra. Várias músicas que conhecemos de cor e salteado aparecem em versões idênticas... até um arranjo no meio ou final da música aparecer e você perceber que o produto final foi o resultado de várias tesouradas para incluir no disco duplo o que havia de mais essencial no repertório e dentro de cada música. Mérito da dupla Waters-Gilmour que assinam a produção junto a Bob Ezrin (um cara que tem no currículo o Berlin de Lou Reed e Destroyer do Kiss). Além destes, um nome aparece como co-produtor: James Guthrie. Esse engenheiro de som foi tão importante para este trabalho (que realmente tem um som só seu, extremamente peculiar), que foi chamado para produzir o disco seguinte, The Final Cut (o canto de cisne de Roger Waters à carreira Floydiana), e é um dos responsáveis pela remasterização de todo o catálogo relançado em 2011. Guthrie também foi recrutado para a transposição de The Wall de um trabalho de estúdio para show ao vivo. Gilmour, que não raramente batia de frente com as decisões egoístas do líder assumiu a direção musical do show, sendo responsável por contratar e ensaiar os músicos extras e de coordenar toda a equipe durante o espetáculo.

IS THERE ANYBODY OUT THERE? é o nome desta preciosidade fotografada ao lado. Todas as fotos seguintes são do mesmo box, que são registros tirados da turnê The Wall entre 1980 e 1981. Foram somente 27 shows, ou seja, se você estava em um deles pode se considerar um 'lucky bastard' só por ter estado presente. Roger Waters reviveu o mesmo conceito nos anos 80 e mais recentemente com uma turnê, mas nada se compara à experiência original. Na caixa "Immersion" tem um DVD que traz uma ou duas faixas em vídeo, mas a dura realidade é... show completo em alta definição, sem chance! Dá pra arriscar alguns registros de filmadora postados no Tubo, mas o que mais aproxima fidedignamente da experiência é esse CD duplo, que também foi remasterizado e incluído na tal da imersão. Para sorte de quem adquiriu o lançamento original (o meu comprei em Maceió, circa 2001) o livreto é recheado de ótimas fotos em papel especial, depoimentos dos 04 membros e também de James Guthrie, um "Behind The Wall" (antes do doc) com detalhes da produção... ou seja material suficiente para atestarmos a grandeza do projeto.

Confesso que tinha ouvido poucas vezes os CDs ao vivo, afinal, como colocado no início do post, The Wall é daqueles discos que simplesmente não me dava vontade de ouvir, por eu saber exatamente de onde vem e pra onde vai. Lógico que ao adquirir o CD triplo remasterizado eu logo revisitei o ao vivo, e não me arrependi. É mais uma luz na evolução do repertório. Há músicas no set list do show que não estão presentes no disco de estúdio, nem nas demos "in progress". Nos textos mencionados, a gente aprende que realmente tudo foi uma questão de escolha de prioridades e, claro, devemos lembrar da limitação do vinil em relação ao tempo de cada lado dos LPs. Músicas como "What Shall We Do" (cuja letra havia sido impressa no vinil original!?!) e "The Last Few Bricks" (um instrumental que une vários temas do disco 1, antes de "Goodbye Cruel World") dão maior linearidade à narrativa musical, ao passo em que a gente entende que a exclusão delas não atrapalhou em nada o entendimento da obra lançada em 1979. E, assim como nas demos que conheci agora, esse novo gás em "Is there anybody out there" me fez perceber outros detalhes que diferem as versões ao vivo das de estúdio. Não são poucas as músicas que tem partes instrumentais extendidas (basicamente para solos), como a jam em "Another Brick in the Wall Pt. 2". Outras como "The Show Must Go On" contém uma estrofe completamente nova. Ou seja, ela devia existir desde sempre, porém a faixa foi encurtada no disco, por razões já especuladas.

Resumo da ópera: The Wall ao vivo é a famosa "ultimate experience": não dá pra ficar melhor que isso (quer dizer, o áudio remasterizado deve ter melhorado o que já era bom)...
Nas fotos, dá pra ter uma boa ideia do que era essa experiência do ponto de vista da plateia: até o final do primeiro set o muro ia sendo construido. No segundo set, várias brincadeiras eram feitas para aproveitar o 'cenário', como Roger cantando no que seria o quarto do personagem Pink, ou David solando "Comfortably Numb" do alto do muro... Impossível ficar indiferente também às animações feitas por Gerald Scarfe, tão boas que se tornaram parte essencial do filme de Alan Parker. As animações eram projetadas no muro, claro. Melhor telão, impossível. ( 0:
Então tá, vamos ao que interessa, em mp3 320 kbps, começando pelo disco original remasterizado:

CD 1
CD 2
CD 3 (Work in Progress)
Pt. 1
Pt. 2
E então temos o original Is there anybody out there?, não-remasterizado, ou seja, essa NÃO é a versão presente na edição Immersion do The Wall. Já tem na net? Fiquei com preguiça de procurar, e quis com esse post compartilhar exatamente o que fez minha cabeça nas últimas semanas...

The Wall Live 1980-1981

CD 1
CD 2
Post-scriptum (elocubrações sobre o que veio depois): The Wall é tão marcante que enterrou de vez uma banda que já assumiu que vivia uma crise desde o estouro de The Dark Side of The Moon, lançado em 1973. As sessões de Wish You Were Here e Animals já foram tensas, culminando na demissão (!) do incomparável Richard Wright, que numa atitude de extrema hombridade (sorte nossa) fez questão de ir até o fim das gravações de The Wall e de sair em turnê como músico contratado (!???) da banda-loucura de Waters. E o que veio depois? Uma grande viagem de Roger chamada de "Requiem for a Post-War Dream" ou simplesmente The Final Cut. Um disco do Pink Floyd sem Richard Wright? Give me a break. Racionalizando: The Wall é tão grandioso que engoliu o Pink Floyd em seu próprio vórtice. A serpente mordeu a própria cauda (ou qualquer metáfora semelhante). O caminho traçado por The Wall nunca deveria ter sido repetido, o que mais ou menos é a única maneira de justificar a existência do Final Cut. E que disco estaremos discutindo daqui a mais 30 anos? The Final Cut? Acho improvável, mas The Wall será para sempre redescutido, reouvido e reassistido...


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Wilson Simonal na Odeon [1961-1971]

Caixinha supimpa. O brother comprou, e além de eu recomendar a compra a quem pode (nada como um projeto gráfico decente para cada Cd e um livreto altamente informativo), me senti impelido a compartilhar o som magistral que invadiu minha casa. Enquanto devorava cada novo álbum, postava no mediafire, e tuitava o respectivo link. Terminado o trabalho, seguem todos os links.
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Ao invés de me meter a analisar toda a obra, me recolho à minha insignificância e me junto a toda uma população brasileira sem memória. Não sabia que Simonal foi em todos os sentidos o maior cantor desse país. Só mesmo uma caixa dessas e o filme "Simonal - Ninguém sabe o duro que dei" para colocar em perspectiva o que sua incrível trajetória representa para a música brasileira. Ascenção e queda, como nos melhores contos de heróis, a carreira dele é tão absurdamente brilhante em seu topo e tão fundo-do-poço no ostracismo pós 71 que ter sua fase de glória relançada e remasterizada é mais do que merecido. É necessário para nos dar um pouco da tal memória perdida. Necessário lembrar que nem sempre música (extremamente) popular é de mau gosto. Que arranjos sofisticados não só se enquadram no jazz ou na elitista MPB. É só acompanhar os brilhantes arranjos dos maestros Lyro Panicalli, Erlon Chaves, Eumir Deodato e Cesar Camargo Mariano, esse último atuando também como pianista do Som Três (ao lado de Sabá e Toninho Pinheiro), trio que acompanhou Simonal em mais da metade desta discografia. Sofisticação a serviço da boa música, que chegou num ponto (a chamada "pilantragem") que flertava com músicas folclóricas, dando um ar popularesco à sua música, porém sempre em arranjos certeiros e um swing irresistível. E a voz... que voz!! Não é só uma aula, é uma humilhação à toda uma geração de pretensos cantores de música popular brasileira. Se tudo isso não fosse suficiente, a gama de compositores gravados por Simonal dá uma ideia de sua versatilidade e bom gosto no repertório: Carlos Lyra, Tom Jobim, Vinicius, Antonio Adolfo, Edu Lobo, Jorge Ben, Silvio César, Marcos Valle, Gil e Caetano (engatinhando como compositores), Chico Buarque, além da marca pessoal de Carlos Imperial, um dos arquitetos da "pilantragem".

É o tipo de artista que dá pra dizer sem medo: leia o livro, veja o filme, e ouça cada disco. Depois tente pensar se já houve cantor maior que Simonal. Não há!

(Clique em cada capa para um link diferente. Boa música para as pessoas de bem!)


















segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Unfinished Music No.2: Life With The Lions [1969]

O novo lançamento da Zapple Records saiu apenas 7 dias após o Electronic Sounds de Harrison. O título é uma referência ao famoso programa da rádio britânica (Life with the Lyons) que John Lennon costumava ouvir com seu tio George, quando garoto em Liverpool. Claro que a mudança de uma letra continha um ácido comentário sobre a rejeição geral que sua nova parceira musical sofria na pele em relação aos outros Beatles, e em todo o lugar onde passava. A foto da contra-capa é peculiarmente ilustrativa, mostrando o momento em que uma "fã" arranca um fio de cabelo de Yoko, num momento já difícil - o casal estava sendo levado à delegacia, acusados de porte de maconha (incidente que perseguiria-os por muitos anos a frente em Manhattan). Sentindo-se o próprio "Daniel na cova dos Leões", a capa mostra outro momento difícil, quando Ono perdeu o que seria o primeiro filho do casal (John Ono Lennon II, acredite), e o pobre MBE teve sua cama levada após um dia em que estava ao lado da paciente. "No Bed for Beatle John", a peça, é exatamente sobre isso.

Enquanto Two Virgins era espontâneo em sua experimentação com gravadores em um mesmo espaço, como uma espécie de suíte durando uma noitada regada a drogas, o No. 2 da série é feito de faixas sem aparente relação umas com as outras. O resultado é mais cerebral ou, se preferir, mais chato. Há algum grau de interesse na longa faixa que toma todo o lado 1, "Cambridge 1969", primeiro por ser uma gravação ao vivo, uma das primeiras performances do casal, em março daquele ano. Descontada a gritaria interminável, o trabalho de microfonia da guitarra de John é bastante interessante, especialmente quando o baterista John Stevens responde com os pratos (e a essa altura já estamos beirando os 20min dos mais de 26...). Os universitários de Cambridge não acreditaram que um Beatle pudesse fazer uma performance tão avant-garde, já os que conheciam Ono como artista plástica não devem ter se espantado tanto... Lá pro fim da peça podemos ouvir John Tchicai no saxofone soprano, o que contribui para o clima free-jazz, mas insisto que os berros de Yoko infelizmente tomam demais as atenções do que poderia ser uma grande jam session.
O lado 2 do vinil original foi gravado em fita ainda em 1968, exatamente durante a estadia do casal no hospital Queen Charlotte. A citada "No Bed for Beatle John" é Yoko a capella, em uma melodia de sabor oriental (japonesa, imagino). Ao mesmo tempo pode-se argumentar que seu canto (e o contracanto de John, ao fundo) lembram o Canto Gregoriano dos monges da Idade Média. Isso dá o que pensar sobre o paradigma Ocidente X Oriente, mas vou deixar a brecha para outro post... "Baby's Heartbeat" é o rebento ainda com vida intra-uterina, num tipo de gravação que seria imitado por Max Cavalera no disco Chaos A.D. do Sepultura. Pelo menos Max foi mais sensato, e usou os batimentos cardíacos do filho como introdução do disco, apenas. "Two Minutes Silence" é exatamente isso. Hoje em dia é fácil "desprogramar" a faixa, mas pensemos no disco de vinil. Lá no meio do lado 2 você é obrigado a "ouvir" 2 minutos de silêncio. A ideia deve muito a John Cage, claro, mas devemos lembrar que o casal perdeu o bebê, então a faixa serve como um luto, interrompendo os batimentos cardíacos que martelam por 05 min. Fechando a bolacha, "Radio Play". Parece que Joko Nono & Cia. estavam mesmo dispostos a imprimir uma estética Cageana à sua produção alternativa. Só que diferente das experiências com rádio do outro John, o casal limitado a um quarto de hospital, gravou o som do dial do rádio indo pra frente e para trás, enquanto podemos ouvir Lennon ao telefone, conversas triviais, aquela coisa doméstica. A faixa dura 12 min (...).
Por fim, temos os bonus tracks incluídos na versão em CD. "Song for John" é outra balada folk, assim como "Remember Love", bônus em Two Virgins. "Mulberry" traz como novidade o que parece ser um dobro, tocado com slide por Lennon. E os vocalizes de Yoko são menos agressivos, provavelmente devido a seu estado de saúde. Ela bem que podia ter estado mais doente durante outras sessões dos dois.. Brincadeiras à parte, melhor citar o sábio George Martin: "No Comment"!

Aqui (.mp3, 192 kbps).

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Sn00ze e Plástico Lunar no Capitão Cook


Para acabar o ano de bem com o Rock, uma ótima ideia para uma festa se transformou em um evento que vai botar o Cook pra ferver. Tudo começou com um combo do Snooze tocando no casamento do amigo Ian Moreira. Com o sucesso do repertório anos 80 com Beatles, o pessoal ficou com "gosto de quero mais". Rapidamente já tínhamos um novo show para divulgar, com os comparsas do Plástico Lunar, mostrando suas novas composições e os clássicos do cancioneiro psicodélico sergipano.
No repertório do Snooze, prometemos cobrir toda a carreira (uma demo, 03 CDs) e tocar novo material, que estamos aos poucos dando forma para poder gravar.
Além disso, dois dos produtores da festa irão mostrar seus talentos como DJs, numa batalha que promete não deixar ninguém entediado antes, entre e depois das bandas.
Quer mais motivo para festejar??
Até quinta!

Matéria do portal da Infonet aqui.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Exercício de composição pós-tonal

Chega ao fim mais um período de faculdade, o 6° para mim. Um dos trabalhos que tive especial interesse em fazer nessa reta final (entre inúmeros relatórios de estágio que entreguei com um dia de atraso) foi da disciplina Estruturação VI, ministrada pelo Prof. Hermilo Santana. Essa matéria é basicamente composição, e marcou muito os alunos das primeiras turmas do curso de Licenciatura da UFS, por ser a cadeira ocupada anteriormente pelo Prof. Dr. Hugo Ribeiro, atualmente na UNB. Quem conhece Hugo deve imaginar o porquê. Como amigo, o ex-guitarrista e/ ou tecladista do Warlord é até um doce de pessoa (em seu jeito peculiar de ser), mas como professor, ele é capaz de deixar traumas, ao mesmo tempo que é unanimidade no quesito competência profissional. As primeiras turmas de Estruturação Musical colecionam histórias ora bizarras e ora hilárias de Hugo à frente como professor. Já é lendária a ocasião em que, aplicando uma prova - onde a essência era compor -, o professor tocou violão, cantando com sua "linda" voz e, não satisfeito, acionou o micro system com alguma banda de heavy metal, sem se preocupar com os protestos dos alunos. Seu nível de exigência incluía a leitura de no mínimo 02 livros por semestre, livros que não necessariamente refletiam seu conteúdo na disciplina, porém serviam como completo, uma espécie de curso paralelo de erudição musical que a gente era obrigado a passar, só por sermos alunos dele.
Nesse momento então que encerro o ciclo começado em 2008, quando entrei no curso, gostaria de compartilhar a composição pós-tonal, que acabou sendo a avaliação final do Prof. Hermilo.
Esta é uma peça para piano baseada na Teoria dos Conjuntos. Eu já havia tido uma introdução a esse universo através do Prof. Bordini, que esteve aqui no II SISPEM, e sinto não ter tido a oportunidade de ouvir de Hugo sua maneira de pensar a música pós-tonal. Quem sabe um dia...

Os conjuntos utilizados foram:
- 0, 1, 2, 8 (que formam a data de aniversário de minha filha) - Dó, Dó#, Ré e Sol#
- 0, 1, 7, 11 (sub-conjunto do anterior, com duas notas em comum) - Dó, Dó#, Sol e Si
- 2, 6, 7, 8 (transposição do anterior, uma quinta justa acima) - Ré, Fá#, Sol, Sol#


O título "há 05 anos atrás", em inglês, é uma referência ao nascimento da Juju, cujo aniversário aconteceria na semana que entreguei o trabalho... Não sei dizer se ela gostaria de ouvir o resultado, mas ela me viu compondo e também quis participar. Diferente do que se pensa no senso comum de que "qualquer nota tá valendo" para esse tipo de música (que não é atonalismo livre), o controle tem que ser absoluto. Segundo o professor Hermilo, o que acontece é que o resultado sonoro desse tipo de música em geral é "frio", como uma música não dotada de emoção, por ser altamente cerebral e calculada. O fato é que gosto é uma coisa estranha, mas juro que prefiro ouvir uma peça de Schoenberg das mais medonhas ao barulho que ecoa das rádios comerciais, que muita gente usa como "música ambiente", condicionados pelos programadores, que por sua vez são guiados pela indústria. Não é música para toda hora, mas ouvidos atentos poderão achar fortes emoções em Stockhausen, Ligeti ou Xenakis, ou tantos outros. It's just music.

Em tempo: http://www.catm.co.uk/

Enjoy!

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domingo, 24 de outubro de 2010

Electronic Sound [1969]

Em 1969, o mundo ocidental vivia no mundo da Lua. Melhor dizendo, a corrida espacial entre EUA e URSS inspirava não só músicos, poetas e cineastas, mas era parte do vocabulário do cotidiano, visto que tudo que os yankees consideram oficialmente relevante parece reverberar culturalmente. Um ano antes, Stanley Kubrick através de seu "2001: Uma Odisséia no Espaço", revelou o que o jazzista doidão Sun Ra sintetizaria em alguns anos: "space is the place".
Mas pera ae, a capa desse disco aí ao lado diz "produced by George Harrison", né o cara dos Beatles? É. Ele fez um disco de música eletrônica (gargalhadas histéricas). "Electronic Sound" é mesmo uma viagem, bixo. Nas palavras do pai da criança: "pode-se chamar de avant garde, mas uma descrição mais adequada seria (como diria meu velho amigo Alvin) pista avant garde!". Entendeu?

Este foi um dos dois lançamentos da Zapple, subsidiária da Apple Corps., empresa fundada pelos besouros um ano antes. John Lennon (sua futura conexão com Zappa me deixa intrigado...) era o principal entusiasta dessa vertente vanguardista, tendo sido responsável pela inclusão de "Revolution #9" no álbum branco. Apesar de Paul brincar com "música séria" bem antes (vide post sobre o Revolver), nessa época ele preferiu ficar de fora das maluquices, e George resolveu dar sua contribuição (ele também havia colaborado em "Revolution #9", ao contrário de Paul). Só que este "Electronic Sound" tem pouco ou nada ver com a série Unfinished Music de John & Yoko, estando estritamente presa a seu título. Como disse, é um disco de música eletrônica. Trata-se de duas faixas (cada uma ocupando um lado do disco) onde o experimento sonoro é simplório ao ponto de podermos visualizar o cabeludo brincando de cientista maluco com seu Moog. E como todo sintetizador, dá pra fazer um bocado de barulho. "Under the Mersey Wall", a primeira faixa parece definitivamente trilha sonora de filme espacial. Há de aparecer algum doido para sincronizá-la com 2001! Já "No Time or Space" é bem mais tensa, e menos interessante. Também é intenso o uso do chamado "ruído branco", que foi aproveitado na introdução de "I Remember Jeep", presente no All Things Must Pass. Curioso mesmo é que Bernie Krause, creditado como assistente da sessão realizada na California em Novembro de 68, processou Harrison alegando que o que foi lançado ali no lado 2 consistia de sua própria demonstração de como operar o Moog III. Verdades ou mentiras, o fato é que a outra gravação data de fevereiro do novo ano. Georginho juntou 1+1, pintou essa lindeza de capa, e pronto, virou vanguardista (rs.). E antes de julgar, porque não ouvir? Encerro traduzindo uma citação que figura no encarte da obra (opa, duplo sentido?):

"Existe muita gente por aí fazendo um monte de barulho... aqui vai um pouco mais" (Arthur Wax)

Aqui (.mp3, 128 kbps)

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Unfinished Music No.1: Two Virgins [1968]

Hora de chutar-o-pau-da-barraca. Lançado no emblemático novembro de 1968, Two Virgins foi gravado na verdade em meados de março, portanto oito meses antes. Após o Wonderwall do George, e com o novo The Beatles revelando excentricidades como "Revolution #9", o terreno parecia mais que propício para John Lennon & Yoko Ono se assumirem como casal e parceiros na arte, com ou sem Beatles.
Mas naquela produtiva noite de março, o futuro casal mal se conhecia. Lennon e sua esposa Cynthia haviam retornado de Rishikesh, Índia - após o mergulho dos Beatles na meditação transcendental - e John parecia disposto a salvar o casamento já em ruínas. Porém, trocando telefonemas com Yoko, a quem ele conhecia desde 66, John aproveitou uma viagem da esposa para a Itália para convidá-la até seus aposentos em Kenwood, onde também se encontrava seu amigo de longa data, Pete Shotton. John e Pete haviam gravado inúmeras fitas durante aquelas semanas (assim como na juventude, os dois adoravam fazer rimas nonsense), e foram essas gravações a base do que viria a ser "Two Virgins".

A ideia é comovente, de tão ingênua. Os pombinhos começaram a noitada dividindo um ácido (acho que a essa altura o Pete já havia dado o fora) - hábito que eles levariam para a futura vida a dois, só que usando heroína. E então deram vazão à loucura produzindo enquanto a noite durava o que ouvimos durante o o disco. As divisões de sessão (Two Virgins 1, 2, etc.) não fazem sentido se pensarmos que a música (se é que podemos chamá-la assim) é como o retrato da capa, tirada meses depois. Um snaphot de um acontecimento, de um love affair. Este, especificamente, só foi consumado após a conclusão da gravação, daí vem a ideia de estarem se descobrindo e se apaixonando, indiferentes ao mundo lá fora, como dois virgens. E daí por diante nada seria do jeito que era antes na vida dos dois...

Após muitos assobios, uma série de sons randômicos no piano começam a aparecer, entrecortados por ruídos. Em seguida uma gravação com rotação alterada se contrapõe aos primeiros vocalizes de Ono, e o primeiro clímax é um grito bastante estridente. Lá pros 6:00 a coisa fica bem interessante: o disco gravado continua tocando (beeem lento), os ruídos se tornam mais intensos, e o piano chega a tentar uma progressão bastante atonal. Seja quem for o pianista do casal, mandou bem. Em geral é fácil achar tudo uma droga e jogar a culpa na voz da Yoko, mas nessa gravação em particular parece que tudo funciona. Os vocalizes de Ono tem um terreno perfeito na loucura concebida pelo Lennon-produtor, incluindo os ocasionais diálogos. Em termos de textura musical, o experimentalismo dos dois tá mais pra dadaísmo do que pra qualquer corrente musical estabelecida. Conclusão? Two Virgins é uma obra sem par, ame ou odeie. Espontâneo, corajoso, e altamente verdadeiro. O final do lado 1 é perfeito nesse sentido, com o "excuse me" de John para apertar o botão de parar do gravador, independente do climão que estava rolando entre a reverberação de algum instrumento e a voz da moça. O lado 2 é extremamente "mais do mesmo"; se não gostou da primeira metade, melhor desistir. A cereja do bolo mesmo é o bonus track do Cd editado em 1997, como parte dos relançamentos do catálogo de Yoko Ono. "Remember Love" é uma pérola, lançada originalmente como Lado B do compacto "Give Peace a Chance". A voz de Yoko é tão doce, que me faz crer que se ela não fosse tão vanguardista em suas concepções artísticas, ela poderia muito bem ter se tornado uma cantora folk/ pop bastante bem sucedida. O violão dedilhado de John lembra muito "Sun King", presente no Abbey Road. Obrigatório.

Download link (.mp3, 192 kbps)

domingo, 10 de outubro de 2010

Wonderwall Music by George Harrison [1968]

"Today is gonna be the day...". É, nem no título de sua música mais famosa o Oasis escapa de uma referência (geralmente inferior) aos mestres de Liverpool.

A segunda incursão Beatle em um projeto fora do grupo também foi uma trilha sonora. George Harrison recebeu essa incumbência no esquema "o que você fizer está bom", e assim foi. O resultado é surpreendente, pela diversidade do material e originalidade, vindo de um músico de uma banda de rock, que havia lançado apenas 02 músicas com orientação indiana (a saber: "Love You To" e "Within You Without You").
Gravado entre Londres e Bombay, "Wonderwall Music" é interessante tanto do ponto de vista da música indiana (as sessões na EMI indiana também renderam "The Inner Light", pros Beatles), como das partes mais experimentais, que ao que parece ilustram cenas do filme em que a psicodelia e o surrealismo imperam. Não é um disco de canções, que o compositor só viria a escoar de verdade dois anos mais tarde em "All things must pass", mas também não é um disco de experimentalismo gratuito (este, a gente fala em breve neste blog). George compôs com liberdade total e é assim que um piano honky-tonk em "Drilling a home" convive com instrumentos indianos (sarod, tabla, shanhais, cítaras...) em outros momentos. São 19 peças instigantes, mesmo sem imagens para ilustrar. "Ski-ing" é um ótimo rock, e assim como Paul em "The Family Way", Harrison não toca (pelo menos não creditado), e no encarte além dos músicos listados da Índia ou Inglaterra, ele agradece aos loops dos amigos. Eddie Clayton é na verdade Eric Clapton.. Rich Snare, Ringo Starr e Peter Tork dos Monkees não é creditado (como Harrison) tocando um banjo emprestado de McCartney. Ashish Kahn é o nome indiano em destaque como performer.
A ideia a princípio foi fazer uma mini-antologia de música indiana para continuar sua recente empreitada de divulgador oficial dessa música no Ocidente. Ele conta que a experiência de gravar na Índia foi instigante porque ele tinha que mixar tudo na hora, pois lá eles trabalhavam com apenas um gravador em mono. Nos termos de Harrison, eles estavam mal-acostumados em Londres com as mesas de 08 e agora 16 canais, então o desafio era fazer tudo acontecer "valendo". Fora isso, não havia isolamento acústico, então em algumas faixas 'indianas' é possível ouvir carros passando, e quem disse que isso é ruim? A sensação durante toda a audição é de música feita espontaneamente, sem pressão. Bem diferente do inferno astral que George viveria com os Beatles dali pra frente, até o fim.
Historicamente, além de ser o primeiro lançamento oficial de um Beatle fora do grupo (levando-se em conta que em "The Family Way" a música de McCartney é incidental), foi o primeiro LP lançado pela recém criada Apple Records, saindo semanas antes do Álbum Branco dos Beatles. Fora de catálogo, devemos agradecer a todos os deuses indianos ou não pela Internet e seus bancos de dados sagrados. Amen.

Download link (.mp3, 128 kbps)

domingo, 3 de outubro de 2010

Exercício pós-tonal e divagações octatônicas

Feito primeiro no Sibelius (para eu poder ouvir as notas), escrevi no Lily Pond (que é gratuito, bonito e gera midi) este exercício para a disciplina Estruturação Musical VI, que entregarei hoje na UFS. A ideia do post é testar esse aplicativo, também gratuito. Com ele dá para tomar gosto em publicar mais partituras e slides produzidos para trabalhos acadêmicos. Também posto o audio, para apreciação.

Daí pensei que poderia fazer o trabalho completo, e resolvi pesquisar sobre o objeto de estudo em si: a Escala Octatônica. Em sua dissertação de Mestrado pela Federal de Goiás, Marlou Peruzzolo Vieira (2010) oferece alguma luz quanto à sua conceituação:

 "Escala octatônica é um termo aplicável a qualquer formação escalar que faça uso de oito notas diferentes no âmbito de uma oitava (WILSON, 2008). (...) Designação para uma escala que consiste na alternância de segundas maiores e segundas menores (KOTSKA, 2006, p. 31). (...) Há, portanto, dois modos desta escala".


Segundo Adriano Gado (2009), em uma comunicação disponível aqui, "um dos interesses pelos compositores quanto à sua utilização reside na riqueza de propriedades internas que ela possui". Citando Joel Lester (1989), o autor aponta que por "conter quatro trítonos, seu uso sugere ênfase em divisões iguais da oitava".

Em tempo, o trítono é aquele intervalo ouvido no riff principal da música "Black Sabbath" (G - G - Db), e não por acaso, costumava ser conhecido como o diabolus in musica durante a Idade Média (WISNIK, 1999, p. 82). Sua constituição é de três tons inteiros, daí o nome. Mais sobre ele aqui.

Voltando à Esala Octatônica, Gado (2009) traz a categorização de Pieter Toorn (1983), que diz respeito às três possíveis transposições desta escala. Isto porque todas as outras "são repetições enarmônicas destas três possibilidades" (VIEIRA, 2010). Em acordo com Kotska (2006) e Wilson (2008), estas transposições podem ser resumidas tomando como ponto de partida as notas dó, dó# e ré. No quadro abaixo, transcrevo da forma sugerida por Toorn, a partir das notas mi, fá e fá#. É tão verdade que "dá na mesma" que podemos fazer a correlação. Na forma OCT 1 temos o ré, a OCT 2 contém a nota dó, e no OCT 3 aparece o ré bemol, enarmônico de dó#.

Por fim, é importante mencionar, que no jazz a "escala diminuta" e a chamada "dom-dim" são as duas formas da escala octatônica. Moral da estória, não é porque é pós-tonal que precisa ficar no academicismo. A aplicação na improvisação (especialmente em músicas de caráter modal) resulta em sonoridades bastante ricas e por isso devemos aprofundar nosso conhecimento na prática! Saiba mais aqui e bons estudos...


Sobre o título de meu exercício: um "octopussy" pode ser entendido como um gato de oito pernas.  Referência? "Meu Vizinho Totoro", obrigatório para os fãs de animação...


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quarta-feira, 29 de setembro de 2010

II SISPEM

O segundo Simpósio Sergipano de Pesquisa e Ensino em Música ocorreu na semana de 20 a 23 de setembro, lá mesmo no Campus de São Cristóvão, onde funciona o Núcleo de Música da UFS.
O primeiro dia serviu como pontapé inicial com apresentações musicais. Não houve palestra, como anunciado na programação. E nem precisava. Qualquer evento que trate de música, mesmo do ponto de vista científico deve haver música para apreciação. E a noite começou lindamente com o Prof. Msc. João Omar, que desenvolve trabalhos na cidade de Vitória da Conquista/BA. Difícil descrever o que ouvi... musicalidade profunda e técnica exuberante. Não precisava ser aluno do curso para se deixar levar por essa música. Todos presentes ficaram encantados. Em seguida o Prof. Msc. João Liberato o acompanhou no palco, retomando uma parceria de longa data. A última peça dos dois trabalhava bem a síncopa nordestina, baseada em semicolcheias. O violão é emblemático em lembrar-nos que a ponte entre música "erudita" e "popular" pode e deve ser encurtada.

Antes de nos recuperarmos dos orgasmos sonoros, a próxima atração foi anunciada, mas não havia músicos no palco. Os artistas estavam todos do lado de fora do Auditório da Reitoria. Eram eles crianças e adolescentes, os Canarinhos de Aracaju. E entraram, cantando, com moral de quem faz isso há bastante tempo. A cantiga repetida por todos até o palco transformou-se num cânone, com os grupos formando rodas, deixando claro para o ouvinte quem está fazendo o quê. Para mim foi especialmente gratificante ver o grau de domínio dos garotos, pois os conhecia desde o ano passado, porém essa foi a primeira oportunidade de assistir uma apresentação completa. Acompanhando a cantoria, além do regente ao teclado, destaque total para o contrabaixo da colega Val, com muita liberdade e propriedade. O maestro Carlos Magno falou bastante, informando o papel do INCASE na formação de futuros alunos do Curso de Licenciatura (o que é desde sempre uma realidade), e do papel social de se estudar música, e não se cobrar nada para aqueles alunos da rede pública. Os Canarinhos saíram como entraram: cantando. Alguns poucos (como eu) ainda foram lá fora ver como o maestro terminaria aquilo. Sem problemas, estavam lá eles, voltados para o regente, de olho no gesto...

De volta ao auditório, a terceira parte do programa trazia o quinteto de sopros da Filarmônica Nsa. Sra. da Conceição, instituição respeitadíssima, um patrimônio cultural do Estado e da cidade de Itabaiana. Me chamou atenção em especial o fagote, fica mais fácil acompanhá-lo em seus registros graves nessa formação do que dentro de uma massa sinfônica. Troquei ideia com o fagotista Henrique no dia seguinte, e para minha surpresa ele não é aluno do curso, mas sim graduando em História, apesar de ter feito diversas disciplinas conosco. A formação do quinteto inclui ainda clarinete, oboé, flauta e uma trompa, muito bem executada.

Para encerrar, nas palavras de João Liberato, um grupo emblemático para o curso de Música da UFS: o Ferraro Trio, que contou em 80% da apresentação com um quarto elemento: o Prof. James Bertisch, que subiu ao palco ovacionado, atestando um alto grau de aprovação dos alunos em relação ao seu trabalho em diversas disciplinas. James tocou teclado e o timbre 'hammond' trouxe uma cor importante para o som do Ferraro. Dá pra dizer que foi a melhor versão que presenciei de temas como "Hamster"... nada contra o didjeridoo, mas a música ganhou em profundidade harmônica. E o que dizer de "Cissy Strut" dos Meters? Perfeito, os diálogos improvisados entre guitarra e teclados foram absurdos. Aliás, apesar de ser óbvio o alto nível de musicalidade de trio, parecia que Saulinho estava particularmente à vontade com mais um instrumento harmônico. Seus improvisos atingiram o grau máximo de liberdade, um Hendrix jazzístico tocando funk. Ave Ferraro!!! Já no dia seguinte...
Era hora de estudar e conversar sobre música. Os mini-cursos de três dias aconteceram pela parte da manhã, e foram eles três: de Canto com o Prof. Dr. Eduardo Xavier, coordenador do curso de Bacharelado em Canto da UFAL; de violão com o já citado João Omar e o curso de Introdução à Teoria Pós-Tonal e Processador de Classes de Notas, com o Prof. Dr. Ricardo Bordini, gaúcho radicado na Bahia. Se eu pudesse teria feito os três, mas como tinha que escolher, fiquei com este último. Por vários motivos, notadamente por ser um assunto de interesse pessoal, mas também por ser esse o semestre que estou cursando Estruturação VI, onde abordamos música contemporânea. E nada melhor que aprender com um especialista na área, referência internacional e também compositor de música moderna. E ao longo dos três dias não me arrependi de minha escolha, pois além de ser um cara bacana, fã de Yes e rock progressivo, Bordini é muito bom professor. E conseguiu passar a sensação de que, mesmo dentre uma infinidade de conceitos de difícil assimilação, é possível se apropriar dessas ideias e experimentar um pouco, ou mesmo se debruçar em uma partitura de música do séc. XX e investigar o que está acontecendo, ao invés de simplesmente julgar que o que ocorre é aleatório e que uma criança poderia fazer o mesmo. Longe disso, se nos conformarmos ao fato de que essa música não obedece às regras do Sistema Tonal e sim às suas próprias regras, configurando-se em outro sistema também fechado em si mesmo, poderemos quem sabe até gostar de alguma coisa que alguns consideram "feia" ou de "mau gosto". Como toda obra de arte, é debruçando-se e entendo as relações dos elementos que a constituem que poderemos ter condição de apreciar o que se fez. E é por essa razão que muitos compositores do séc. XX se tornaram analistas, publicando artigos sobre suas próprias obras, para provar que há sentido no que estavam fazendo, mas não à luz da consagrada música da chamada "prática comum". Pois bem, caras como Bordini passaram anos fazendo contas no papel para compor e analisar peças (é, notas são números para a teoria pós-tonal). E o resultado desse empenho é uma calculadora criada pelo Prof. Jamary Oliveira da UFBA, disponível aqui. Com ela, uma serie de operações que antigamente você precisaria brincar de cientista maluco para analisar ou compor suas peças estão disponíveis em botões de uma calculadora. É disso que trata o tal Processador de Classe de Notas. Claro que não adianta sair apertando botão sem entender para que serve cada coisa. Lá naquele sítio dá para baixar tutorial e explicações, e mesmo para nós que fizemos o curso é necessário se debruçar para começar a entender e ter consequente domínio. Assim que conseguir completar minha composição baseada em meu número de CPF, pretendo postar e explicar o que fiz e porquê.

Na terça-feira, dia 21, no turno da tarde o Prof. Dr. Sérgio Figueiredo (UDESC) foi apresentado a nós como agente importante no processo que levou ao complemento da LDB de 1996, a lei 11.769 de 2008, a famosa lei que finalmente regulariza o ensino de música como obrigatório em todo o país. E é justamente esse o ponto principal sob o qual foi realizado esse simpósio. E foi com Sérgio que pudemos entender melhor o texto da lei, e refletir sobre a aplicabilidade da mesma e outras questões, como o polêmico veto do presidente Lula a um de seus artigos. Dada a importância e a quantidade de informações e modelos adotados em outras cidades que o palestrante acompanhou, o workshop continuava na quarta.

Tivemos em seguida, na terça, uma importante sessão de comunicações, onde alunos do curso tiveram a oportunidade de desenvolver alguma pesquisa científica, que poderá ou não desembocar no TCC ao fim do curso. Foi assim que ano passado falei sobre Varèse, mas este ano fui só ouvinte. Maria Gorete, gloriosa "tia" de vários colegas do Conservatório, abriu os trabalhos apresentando uma visão geral de seu trabalho de conclusão, colocando o nome de três mulheres, geralmente ignoradas pela História, como fundamentais para a criação do que hoje é o Conservatório de Música de Sergipe. Em seguida, minha coleguinha Thais Rabelo nos apresentou a fábula da Cigarra e a Formiga à luz da atual situação que a música se encontra, quando vários segmentos da sociedade duvidam que sirva "pra alguma coisa" ou que a atividade musical seja digna de respeito. Ótimo trabalho, fiquei apenas apreensivo do músico morrer de fome e de frio, como no desenho animado, baseado na mesma fábula (rs.). Seguindo a sessão, um representante do "clube do baixo" (forte tendência no nosso curso), Paulinho "Groove", propôs uma reflexão sobre a música como Arte ou Ciência. Difícil tarefa com a quantidade de abordagens expostas, mas a ideia é excelente, necessitando de mais tempo para maturação. Encerrando, o guitarrista-ninja Saulo Ferreira nos apresentou um método desenvolvido pelo próprio para ensinar guitarra para seus alunos. A ideia é muito simples, Saulo sacou que o que costuma travar os instrumentistas de corda com traste é justamente a facilidade de transposição, visto que aprendemos escalas através dos chamados shapes. Daí que muitos não se preocupam em saber quais as notas das diferentes escalas, já que mantendo-se o mesmo desenho conseguimos a mesma sonoridade transpondo regiões do braço. Se você quiser entender mais é melhor perguntar ao próprio Saulo, mas o resultado é uma bênção quando você lembra de professores que querem mais quantidade que qualidade do aluno. O desdobramento é ainda mais gratificante quando ele aborda a improvisação. O que muitas vezes parece impossível de teorizar, pode se tornar muito simples, dependendo da abordagem...

E ainda na terça ocorreu uma mesa redonda (originalmente programada para quarta) intitulada "Políticas públicas e legislação educacional para a área de música", que além de Sérgio Figueiredo, contou com a Prof.ª. Dr ª. Rejane Harder do nosso NMU, e o Prof. Dr. Eduardo Xavier da UFAL. A fala deste último foi basicamente um desabafo acerca da precariedade e dificuldades encontradas no curso superior de Música em Alagoas. Um retrato assustador, com intrigas e politicagens ofuscando um curso de mais de 20 anos de existência. Recentemente conseguiram criar o curso de Licenciatura em Piano, tendo como professor o grande Manoel Junior, mas o que entendemos da fala do prof. Xavier (isso me lembra X-Men), foi que poderiam ter expandido e revitalizado o curso de maneira inédita, não fosse a má vontade dos próprios colegas. Um dado lamentável. Se no nível de graduação é assim difícil, imagino que a tarefa de levar música pras escolas será ainda mais complicado para os colegas alagoanos...
O papel da Prof.ª Rejane foi relatar o andamento de uma pesquisa feita em conjunto com alguns alunos das disciplinas de Estágio, que mapeia a atual situação do ensino de música em Aracaju. Em linhas gerais o que temos é somente uma escola da rede pública com aulas de música, outra com uma banda que ensaia anualmente para o 7 de setembro, e muita desinformação e preconceito. Na rede particular há escolas que já tem aulas regulares, como a Nossa Escola e Arquidiocesano, que inclusive cederam espaço para nós estagiários observarmos seus professores e neste semestre ministrarmos aulas. Fora esse levantamento, a professora nos trouxe informações sobre as 20 bolsas do PIBID que está servindo para dar um pontapé inicial para a implementação da música no Ensino Fundamental II (sexto ao nono ano) em várias escolas da rede pública. Além disso, há um projeto vinculado ao PRODOCENCIA, cuja proposta é a elaboração de material didático, com planos de aula testados e aprovados pelos estagiários em campo e bolsistas do PIBID. 
Mas a estrela da noite foi mesmo o Prof. Sérgio. Suas principais ideias e estratégias motivacionais que iriam desembocar na continuação do workshop no dia seguinte eram:
- o MEC não vai nos dizer que aula de música é essa, muito menos dizer que livro didático deve-se adotar, então cabe a nós determinar tudo isso e brigar pela qualidade do ensino;
- as escolas de Sergipe não vão sair abrindo vaga e ligando pros ex-alunos formados na UFS para poder fazer cumprir a lei. Se um diretor entender que cantar o Hino Nacional é suficiente para estar em acordo com a lei, ninguém estará lá para dizer que a ideia não é essa;
- nós, músicos e/ ou futuros professores de música temos que estudar a lei para ter argumentos sólidos e sair do senso comum do tipo "música faz bem para a alma". Não adianta só reclamar. Para fazer valer nossos ideais de uma educação que inclua música bem ensinada, é preciso agir politicamente, e isso significa ser o mais presente possível: participar de encontros da área de educação; frequentar a câmara de vereadores; fazer artigos em blogs como este; enfim, unir a classe estudantil em prol de uma mesma vontade política.
Outro argumento bastante martelado é para derrubar qualquer opinião que desqualifique a importância do profissional formado para ensinar música. Afinal todos nós falamos português e nem assim somos todos professores desta língua. Assim como ser professor de “línguas estrangeiras" não implica que ele vai ensinar qualquer língua, afinal todas que não são português se encaixam nesta categoria. Isso derruba a insistente noção de se dividir o horário de música com "Artes", fruto de uma prática educacional adotada nos anos 70, com a disciplina-fiasco "Educação Artística". Daí outra briga: todas artes precisam ser contempladas, mas cada uma como disciplina isolada. O que mais se ouve é que "não há espaço na grade", mas tudo é uma questão de vontade e reorganização dos projetos político-pedagógicos. E é aí que entra a ação dos estudantes em ter certeza que representantes, por exemplo, de nosso Núcleo de Música acompanhem essas discussões e ajudem a formatar a inserção das Artes e da Música nas escolas. A obrigatoriedade implica por fim numa democratização dos conteúdos em suas diferentes áreas de ensino. Quantas vezes eu não me perguntei para quê que eu estava estudando algo de Química ou Física?? E, de fato, não lembro de quase nada destas áreas, e não me tornei alguém capacitado a lidar com tubos de laboratório porque passei nessas disciplinas (e em dois vestibulares). Educar musicalmente nossos futuros cidadãos, da mesma forma, não implica "descobrir novos talentos", mas preparar pessoas com um melhor senso crítico, estético e, enfim, sempre tem um ou outro que acaba se interessando o suficiente para procurar o Conservatório, e futuramente uma graduação. Implica em disponibilizar uma informação que não devia ser exclusiva dos músicos. É reintegrar uma matéria tão básica que fazia parte do Quadrivium na Antiguidade Clássica (junto com Geometria, Aritmética e Astronomia)!

Foi essa a discussão continuada na quarta à tarde, sendo que após uma pausa, o Prof. Sérgio propôs que formássemos grupos para pensar o que se poderia fazer a curto, médio ou longo prazo. Iniciativas individuais, coletivas... era hora de pensar em nossa realidade! O resultado foi bastante positivo, com alunos como Rodrigo “Peninha”, Rafael Jr. e Juarez manifestando-se e confirmando que o discurso do prof. deu resultado. Falou-se de assembleias de alunos, confecção de material informativo (folders), explicando à sociedade os benefícios do estudo da música. Foram mais ideias do que eu vou conseguir lembrar, mas o mais importante foi perceber que tava todo mundo contaminado. E o desafio é justamente continuarmos contaminando outros... do micro ao macro.

A última tarde de simpósio começou com duas palestras em cada um dos dois horários, ou seja 04 no total. As minhas escolhas foram as da maioria, então tivemos uma sala de aula entupida de gente, tanto na palestra do Prof. Dr. Christian Lisboa, quanto na seguinte, do Prof. James Bertisch. Na outra sala revezaram-se o Prof. Msc. João Liberato, expondo sua dissertação “Filarmônica N. Sra. Da Conceição: Funções de uma banda de música no agreste sergipano entre 1898 e1915”, e em seguida o Prof. Msc. Ion Bressan: “A formação de orquestras jovens e sua relação com o mercado de trabalho”. Segue o meu relato presencial.

O tema do Prof. Christian era Psicologia da Música, que ele já havia abordado no ano anterior. Importante diferenciar da Musicoterapia, que tem função terapêutica, a abordagem aqui é mais investigativa acerca do que ocorre conosco ao ouvirmos ou executarmos música. O mais legal foi simular um experimento real, onde ouvíamos músicas e ora escrevíamos palavras aleatórias, ora escolhíamos grupos de adjetivos que poderiam caracterizar nossas sensações. Ainda pretendo me aproximar do grupo de estudo nessa área que o prof. lidera dentro do NMU, até por uma questão de honra, sendo Psicologia minha primeira formação. Mais interessante ainda do ponto de vista pessoal foi a palestra do Prof. James, que tratava da relação contrapontística que se configura como um desafio para o contrabaixista que canta. Ou seja, algo que faço desde moleque. Houve até o momento em que apontaram para mim e me fizeram receber uma salva de palmas. Mas os caras escolhidos para os exemplos diferem bastante deste pobre baixista-cantor. Após uma geral dos termos usados em música popular, e a diferenciação dos sub-gêneros dentro do rock, o primeiro exemplo era uma música do Yes, anos 80. Nessa música Chris Squire dobra o vocal com Jon Anderson, e o que foi mostrado na partitura é que muitas vezes as linhas ascendentes da voz coincidem com linhas descendentes do baixo, e vice-versa. O prof. Bordini, sentado ao meu lado, observou que poderia-se analisar a peça como 6/8 na voz enquanto o baixo marca 3/4. Compasso composto X compasso simples. E esse era um exemplo até bem básico. A coisa começou a complicar mesmo com Geddy Lee, do Rush, também um exemplo dos anos 80. “The Big Money” foi sugerida por Robson, e ainda bem que James o ouviu. O trecho transcrito era a parte do meio (“sometimes, etc.”) e se eu já tinha certeza da incrível independência de Geddy Lee, a transcrição serve como uma espécie de comprovação científica!  O último baixista contemplado era um cara que eu não conhecia, Mark King, do Level 42, mas definitivamente foi o mais “cabuloso”. O groove do baixo era bastante complexo e a voz simplesmente não acompanhava suas síncopas, chegando a não coincidir entradas por diferenças de meio-tempo. E o pior era que o vídeo era ao vivo, não dava nem para dizer que ele gravou separado. Belo exemplo.

Finalmente, encerrando o II SISPEM, ocorreu a mesa redonda “O papel das IFES nordestinas diante da nova realidade vislumbrada a partir da lei 11.769/2008”. Este era, na verdade o título da fala do Prof. Christian, que fez um apanhado geral das conquistas do curso de licenciatura em música da UFS, desde sua chegada em 2009. Claro que o caminho até 2009 foi carregado pelo Prof. Dr. Hugo Ribeiro, que afastou-se do núcleo e hoje está em Brasília. Mas é fato que foi a partir da contratação dos demais professores efetivos que mudanças importantes foram feitas. A desassociação com o departamento de Morfologia (uma bizarrice necessária para a existência do curso em um primeiro momento); a conquista das salas de aula e da secretaria; a contratação dos secretários; os contínuos concursos para mais professores efetivos e substitutos; os aparelhos de som, DVD e data show; a compra de instrumentos (muitos a chegar); a prova específica prática para entrada no curso (valendo esse ano!).... O relato dele deixou claro que para um curso que ainda vai formar a primeira turma, estamos crescendo e rápido. As novas gerações não tem com o que se preocupar, porque já está reservado para o nosso curso um bom espaço nas futuras instalações da UFS, onde teremos salas acusticamente preparas, auditório, e um espaço decente para se guardar instrumentos. Fora o anúncio do plano para implementação de um curso técnico, onde estaríamos preparando melhor os futuros alunos da graduação.
Mas essa mesa redonda configurou-se especial pela presença de um diretor, representando a Secretaria de Educação, Paulo Roberto de Menezes Rêgo, atual Diretor do Serviço de Ensino Médio; e também de Rivaldo Dantas, que compôs a mesa como representante da Secretaria de Cultura. A última integrante da mesa era a Prof. Rejane, que basicamente repetiu sua fala da terça-feira, no intuito de informar aos convidados sobre como está a situação da música atualmente, além de um breve histórico da Educação Musical no país desde a época do Canto Orfeônico. Por fim, a fala de Rivaldo, ex-diretor do Conservatório, revelou-se polêmica, devido a um infeliz exemplo de um músico sergipano bem-sucedido, onde ele sugeria que estes músicos poderiam ser absorvidos pelo mercado, já que o campo de trabalho é imenso, e a quantidade de profissionais graduados em licenciatura não seria suficiente. Mesmo tendo deixado claro que estes músicos deveriam ter um tempo para procurar as universidades e se reciclar, a sugestão não foi muito bem recebida, e o debate acabou numa tentativa de entendimento de ambos os lados, com alunos tomando partido e já expondo as ideias aprendidas durante o simpósio. Em relação à necessidade de se incluir nos futuros editais a exigência de licenciatura, Paulo Rêgo pronunciou-se no sentido de nos assegurar que essa já é a política dos últimos anos, e não haveria possibilidade de concurso público para professor em qualquer área sem essa graduação. A professora Gorete manifestou-se relatando o processo ocorrido no concurso deste ano pro Conservatório, onde eles tiveram que dialogar bastante junto à SEAD, para que reduzissem a exigência para 50% de créditos cursados na licenciatura, o que de fato foi como essas vagas foram preenchidas, com colegas de minha turma como Thais e Ítalo Robert, merecidamente aptos a assumirem depois de passar pelas bancas examinadoras, mesmo sem terem ainda concluído a licenciatura.
O que podemos refletir junto a tudo isso é que a música nas escolas não deve ser implementada de uma vez, mas de pouco a pouco. Parece ser o caminho mais prudente a se seguir. O que já é uma realidade, diretamente relacionada à ação dos alunos da graduação no Estágio e os bolsistas do PIBID. É justamente esse o papel da Universidade, assumir-se como centro pensante dessa discussão, e agente articulador entre as ideias e a prática.

Para encerrar o SISPEM com música, visto que o recital previsto pro Cultart havia sido cancelado por problemas técnicos da casa, improvisou-se no mesmo espaço da mesma redonda uma belíssima apresentação do quinteto Clarinetando. Destaque para o clarinete-baixo (ou clarone) tocado por Enéas. Foram poucas e curtas peças, mas necessárias para lavar a alma, depois de tanta discussão. Que venham mais simpósios! Antes de encerrar ainda houve sinalizações de continuação das discussões entre os alunos, dentro das assembleias do diretório acadêmico. Parece que o “bichinho” mordeu pra valer...

P.S.1: Todas as fotos deste post de autoria de Paulinho "Groove".
P.S.2: Blog do SISPEM: http://www.sispem.blogspot.com