quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

A Nice Pair


Pan era um deus da mitologia grega. Sua figura mezzo bode, mezzo humana é para sempre associada àquela flautinha... a flauta de Pan. No fim do século XIX houve um crescente interesse em reviver esse mito por parte de escritores e pintores. Isso perdurou até a modernidade do Séc. XX, representada pela referência em um dos símbolos do império Disney (Peter Pan, naturally), e na inclusão de figuras pan-like em um dos segmentos do clássico Fantasia (1940), também do velho Walt.
Ainda em 1908 um cara chamado Kenneth Grahame escreveu um livro de nome "The Wind in the Willows" (O Vento nos Salgueiros), um clássico da literatura infanto-juvenil. Este livrinho era um dos favoritos de Roger Keith Barrett. "The Piper at the Gates of Dawn" é o título do sétimo capítulo de Wind in the Willows, e o 'flautista' do título refere-se a Pan.

Uma das referências que o Pink Floyd faz a Syd na música "Shine on Crazy Diamond" é essa mesmo: "You Piper". Ele foi o Pan para o Floyd. Ao tocar sua 'flauta' a mágica foi criada na forma de uma das maiores e mais aventureiras bandas da história do rock. Acima do rock, na verdade, o Floyd é daquelas bandas que criaram uma estética própria, partindo de alguma raiz tradicional (blues, folk, etc.) criando uma identidade sonora única como fizeram os Byrds, Beach Boys, Beatles ou Hendrix. Se ouvirmos atentamente toda a discografia da banda, fica claro que a sonoridade do disco de estreia é de verve única. Mesmo "Take up thy stethoscope and walk", de Roger Waters, soa como uma música de Syd - a guitarra dessa música é a mais frenética do disco.


Tocando juntos desde 1962, os três estudantes de Arquitetura Roger Waters, Richard Wright e Nick Mason, mais o estudante de artes Roger 'Syd' Barrett adotaram o nome The Pink Floyd a partir de 1965. Logo se infiltraram no crescente movimento underground londrino representado por bandas como The High Numbers (que virou The Who), The Kinks; ou por coletivos das artes plásticas como os holandeses do The Fool. A banda começou a criar um nome no circuito justamente por uma associação a artistas visuais que criavam projeções psicodélicas durante os concertos, o que imediatamente associou o som do grupo a essa nova onda, impulsionada pelo consumo de ácido lisérgico (não proibido na época), o qual logo virou rotina para nosso pan-Syd. Finalmente se profissionalizando, o primeiro single foi lançado em março de 1967: "Arnold Layne" é uma canção pouco convencional, que de cara dava uma boa ideia dos talentos de Barrett como compositor, letrista, guitarrista e vocalista. Sua letra sobre um personagem "baseado em fatos reais" travesti que tem como hábito roubar roupas de baixo femininas não pegou bem com a conservadora BBC e foi prontamente banida das rádios. Porém, o estrago já estava feito. O lado B, "Candy and a Currant Bun" tinha como título original "Let's roll another one", em uma clara referência à maconha. O próprio Waters convenceu Syd a mudar o título; ainda assim os executivos da gravadora deixaram passar o verso "Oh don't talk with me/ Please just fuck with me". Bem mais obscura que Arnold Layne, que merecidamente foi incluída em diversas compilações, como "Echoes", de 2001, "Candy" foi prejudicada pela produção. Até Pete Townshend já foi citado dizendo que o Floyd (de Syd) em disco não traduz o que a banda produzia ao vivo (e isso não foi um elogio).

Bem melhor se saiu o segundo compacto, "See Emily Play" ("Scarecrow" no lado B), tanto em termos de produção (bem mais elaborada que Arnold) quanto em posição nas paradas. Também conhecida à época como "Games for May", See Emily Play foi lançada em Junho do 'verão do amor', um mês antes da estreia em LP, e é tão boa que foi colocada como abertura da versão americana original do debut Piper at the Gates of Dawn. A capa do single foi desenhada por Syd Barrett, com o 'The' já retirado do nome!

Com as boas vendas, o quarteto recebeu 5.000 libras da EMI para gravar o disco de estreia, com horas ilimitadas e total liberdade no estúdio, sob a condição de trabalharem com o confiável Norman Smith. O que eles não sabiam é que longe de ser um líder convencional, Syd tinha sua própria ideia de como se gravar um LP. De cara, gravaram "Interstellar Overdrive" uma jam instrumental que já editada passa dos 09 minutos. A fúria sônica das guitarras de Syd, aliada aos teclados viajandões de Richard Wright são o grande barato da música, que ainda inclui um efeito de pan (nota do autor: essa conexão não foi intencional rs.) na volta ao riff principal; isso me lembra o fusca do Snoozer Clínio, no qual ouvíamos isso em alturas não recomendadas por profissionais de saúde, e o efeito causado pela forma circular do "Azulão" fazia o som literalmente rodar sobre nossas cabeças. Bons tempos...

"Matilda Mother" foi também das primeiras trabalhadas pro disco. Uma versão "early take" dessa música cantada por Richard Wright foi incluida na compilação An Introduction to Syd Barrett, produzida por David Gilmour em 2010 (e neste post também!). As letras da estrofe foram completamente modificadas na versão final, mantendo-se apenas o refrão (cantado por Syd).


The Piper At The Gates of Dawn, o disco, é feito de altos e altos. Não há uma música sequer em que a banda  não soe inovadora por um ou outro aspecto. Até um filler como "Pow R. Toc H." possui achados interessantes se ouvida com atenção. A abertura com "Astronomy Domine" é de uma genialidade sem fim. A métrica quase infantil, como alguém interpretando a leitura de um manual de bruxaria enquanto bate os pés no chão. É também o marco zero do space rock: antes da metade da música uma pausa é preenchida apenas por uma nota da guitarra, com os instrumentos flutuando de volta pro arranjo. A voz do empresário do grupo soa como algo que você ouviria em uma viagem interplanetária, e isso ajuda no clima, assim como o uso de eco e efeitos processados. É bom lembrar: o acordo da gravadora era 'liberdade total'... "Lucifer Sam" também possui essa qualidade psicodélica, com efeitos bastante interessantes. O órgão é, como sempre, responsável por boa parte da identidade sonora do Pink Floyd. "Flaming" é outra pérola, novamente com algo de infantil em como Syd canta 'yippee, you can't see me...'.

No lado B, com boa parte tomado por "Interstellar Overdrive" sobram 04 musiquinhas: "The Gnome" é uma fofura de canção-de-gnomo. A letra de "Chapter 24" é baseada no referido capítulo do I Ching, o 'Livro das Mudanças". Em "The Scarecrow" há um revezamento de fórmula de compasso que a torna difícil de bater o pezinho, exceto no trecho final, quando um violão com volume mais alto do que estávamos ouvindo puxa um riff repetitivo com um violoncelo fazendo um bordão aliado ao riff do baixo, encerrando a música em fade-out. Encerrando o álbum, "Bike" desafia qualquer músico a adivinhar a fórmula de compasso, que obedece à métrica da letra brilhantemente arquitetada por Syd. E o final, a "sala de temas musicais" da letra toma forma numa cacofonia, como que indicando ao ouvinte que dessa banda você pode esperar tudo (e é exatamente essa deixa que o futuro Floyd poria em prática a partir do ano seguinte).

Último compacto lançado pelo Floyd em 1967, "Apples and Oranges" é aquele em que Syd canta "I'm feeling very Pink". A gravação e a sonoridade do lado B "Paintbox", de Wright, é bem mais limpa e não parece ter vestígios da presença de Barrett na gravação. A essa altura, David Gilmour já andava substituindo o Syd, que por vezes ia pros shows porém permanecia imóvel... O quinteto chegou a posar para fotos, mas internamente Syd nunca voltaria a trabalhar normalmente como membro do grupo, até ser chutado da banda após o lançamento do segundo álbum....



O Floyd de 1968 a 1970 é um reflexo do que aconteceu com Syd. Afinal ele não era 'só' o fundador e líder, como autor de 95% das composições do grupo. O esforço de superação do grupo consiste numa fase errática, que não agrada todo o tipo de ouvinte, fazendo a cabeça daqueles que apreciam experimentações viajandonas, se é que você me entende... Mas antes de chegar em suítes de 20min eles haviam de provar a si mesmos e ao mundo que conseguiriam sobreviver 'apesar' de Barrett. Em "A Saucerful of Secrets" ele ainda é da banda, apesar de ter uma única contribuição ("Jugband Blues"). E mesmo tendo uma óbvia influência em "Corporal Clegg" (alguém podia jurar que é a voz de Syd no refrão), o próprio Barrett desmentiu nos anos 70 ter participado da gravação dessa música de Waters, cuja letra é a primeira que faz referência à guerra, tema recorrente para o baixista, uma década na frente.

Também é de Roger Waters a introdução do álbum: "Let there be more light" começa com um riff do baixo, e é a primeira música do Floyd com vocais e solo de guitarra de David Gilmour. Ainda de Waters é "Set the controls..." que, assim como a faixa título e o B-Side "Careful with that axe, Eugene" sairiam mais tarde em versões ao vivo no Ummagumma de 1969 e no home video Live at Pompeii, com show de 1971. Ou seja, dá pra concluir que o som que o quarteto Waters-Wright-Mason-Gilmour apostava como o som do Floyd pós-Barrett era esse mesmo: viajandão, calcado em longas jams e por vezes barulhento.
As duas composições de Richard Wright são as mais calmas e também as mais ricas melodica e harmonicamente: "Remember a day" e "See-saw".

Também é de Wright a autoria do single "It would be so nice" que, assim como "Point me at the sky" foram solenemente ignorados na compilação Relics, de 1971, ao passo que seus lados B foram incluídos. "Point me at the sky" é considerada pela banda algo de se ter vergonha, e realmente não é uma música muito memorável, a única coisa que me chama a atenção é o baixo pesadão, pouco comum no som do Floyd. Já "It would be so nice" é uma pérola, e seu refrão é a coisa mais Syd Barrett de um Pink Floyd sem Barrett, e é bem provável que essa tenha sido mesmo a intenção, quando o compacto foi lançado todo o material de imprensa era o do Floyd com Barrett - ele inclusive figura na capinha...
 "Julia Dream" é uma musiquinha bucólica, daqueles tipos que Roger Waters retomaria em Ummagumma: voz e violão, além de uma flautinha. A já citada "Careful with that axe, Eugene" tem em sua versão de estúdio uma maior presença do teclado improvisando, a música não tem ainda o ataque característico da versão ao vivo e os berros de Roger é uma coisa mais de fundo, o que particularmente acho que funciona mais...

Em tempo: "A Nice Pair" foi o nome de um LP duplo lançado nos anos 70 que reunia os dois discos deste post, sem os compactos, claro.

Seguem os tracklists:

The Piper at the Gates Down (2011 Remaster) + 1967 Singles

01 Astronomy Domine
02 Lucifer Sam
03 Matilda Mother
04 Flaming
05 Pow R. Toc H
06 Take Up Thy Stethoscope and Walk
07 Interstellar Overdrive
08 The Gnome
09 Chapter 24
10 Scarecrow
11 Bike
12 Arnold Layne (Single A-Side)
13 Candy and a Currant Bun (Single B-Side)
14 See Emily Play (Single A-Side)
15 Matilda Mother (Alternative Version)
16 Apples and Oranges (Single A-Side)
17 Paintbox (Single B-Side)
+ scans


All songs by Syd Barrett, except tracks 05 and 07 (Barrett/ Waters/ Wright/ Mason), 06 (Roger Waters) and 17 (Richard Wright)

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A Saucerful of Secrets (2011 Remaster) + 1968 Singles

01 Let There Be More Light (Roger Waters)
02 Remember a Day (Richard Wright)
03 Set the controls for the heart of the sun (Roger Waters)
04 Corporal Clegg (Roger Waters)
05 A Saucerful of Secrets (Waters/ Wright/ Mason/ Gilmour)
06 See-Saw (Richard Wright)
07 Jugband Blues (Syd Barrett)
08 It Would Be So Nice (Richard Wright) (Single A-Side)
09 Julia Dream (Roger Waters) (Single B-Side)
10 Point me at the sky (Waters/ Gilmour) (Single A-Side)
11 Careful with that axe, Eugene (Waters/ Wright/ Mason/ Gilmour)
+ scans


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sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Backs To The Wall

Em tempos em que o barato (não nos preços) é comprar luxuosos LPs em prensagens novas de alta fidelidade, só mesmo essa massiva campanha de gravadoras multinacionais relançando discografias completas das mais queridas e amadas bandas de rock mundial para aquecer o mercado de CDs (tido como decadente há uns bons 05 anos atrás). Uma das primeiras a ter sua discografia remasterizada e embalagens 'repackiadas' foi o Led Zeppelin (Atlantic). Ainda não estava em voga o digipack, que aproxima o CD da experiência única de se manipular um LP. Uma década depois a EMI jogou duro e finalmente atualizou a discografia de um campeão de vendas: os The Beatles! Não só o som foi melhorado, mas as embalagens deram aquela sensação de justiça sendo feita à grandiosidade da música. Os fãs agradecem, o departamento de vendas das lojas também! Rolling Stones e Bob Dylan vêm aos poucos explorando relançamentos que fazem mesmo um cara que já tem uma edição qualquer do LP e o CD lançado na década de 90 (com som pífio comparado ao LP original) vá lá em compre pela terceira vez o mesminho disco, mesmo que não possua nenhum 'extra'. A discografia dos Doors é um caso à parte: a Elektra não só capricha nos encartes e na remasterização dos clássicos álbuns com Jim Morrison, mas há inserções de conversas de estúdio antes e depois das músicas, faixas bônus aos montes em cada disco, e "Light My Fire" com a rotação consertada (é, o que ouvíamos anteriormente era a master feita a partir de uma fita acidentalmente acelerada). No caso da EMI - os supracitados Beatles e a recém lançada campanha "Why Pink Floyd" com a gigantesca caixa "Discovery" -, os relançamentos apresentam os tracklists idênticos aos originais. Tiro certeiro pro 'hardcore fan' não se desapontar, afinal o mais importante fator em qualquer disco é o som, e esse é o grande trunfo desses 'remasters', assim como nos dos Beatles (seja estéreo ou mono). O segundo fator mais importante é a apresentação do material, e se nos besouros já tava lindo, com o Pink Floyd é um passo adiante. Especialmente nas edições "Experience" e "Immersion" de três álbuns-chave do quarteto inglês: Dark Side of The Moon, Wish You Were Here e The Wall, também relançados em vinil. As  edições "Discovery" também não deixam a desejar. Embalados no plástico nas vitrines parece fino demais, mas justiça seja feita, o digipack usado é capa dupla e os encartes contém imagens das artes originais retrabalhadas, fotos, letras e ficha técnica completa. Não dá pra querer mais que isso, né...

Ao pensar com meus botões que discos do Pink Floyd eu daria prioridade pra adquirir, certamente escolheria o álbum de estreia (The Piper at the Gates of Dawn), que amo de paixão, o Meddle e o Animals. Também tem o A Saucerful of Secrets, Ummagumma e o Wish You Were Here, mas em nenhum momento o The Wall figurava em qualquer 'top 5' que eu fizesse sem pensar muito. Assim como alguns clássicos do Zeppelin, Deep Purple e Sabbath, o The Wall é daqueles discos que ouvi tanto na adolescência que estava dentro de uma gaveta (um muro?) cuja importância eu subestimava. Eu sequer o havia ouvido na antiga versão em CD. Só conhecia mesmo o velho LP CBS de meu irmão e, claro, o genial filme de Alan Parker que mune o espectador de vívidas imagens para sempre indissociáveis do áudio original.

Eis que em uma recente ida a Itabaiana e visita à loja TNT Rock com pouco tempo disponível para escolher entre vários títulos apetitosos, me deparo com a edição "Experience" do disco-do-muro. O CD é triplo, contendo o disco duplo original, mais o extra intitulado "Work in Progress", contendo não as demos de Roger Waters - presentes nos extras expandidos da caixa "Immersion" - mas já as sessões de estúdio com a banda ainda encontrando as melhores soluções não só nos arranjos (algumas músicas contém diferenças gritantes), mas também no ordenamento das faixas que, em se tratando de The Wall, faz toda a diferença!


O disco duplo original é uma obra ímpar não só na discografia do Floyd, mas de uma visão que não se encontra em nenhuma outra banda. Pensei, pensei, e não achei absolutamente nada parecido. Mesmo sem ter havido filme (lançado em 1982) é uma narrativa completa, em 02 atos, com personagens, efeitos sonoros (altamente valorizados na remasterização), e a mais emblemática performance de Roger Waters que, pra quem não sabe, é o grande gênio por trás da concepção do álbum, e canta diversas músicas de maneira tão visceral que você não acredita que ele é apenas o vocalista do Pink Floyd, mas ele é o próprio Pink, personagem principal da trama narrada em The Wall. De fato, a gênese do álbum partiu da própria experiência de Roger vendo os shows de sua banda se transformarem em um mega evento, tocando em estádios e perdendo o contato próximo aos fãs de outrora. A catarse veio após um show da turnê do disco anterior, Animals, onde Rogério Águas cuspiu em um fã que havia furado o bloqueio dos seguranças para poder subir no palco, berrando o quanto amava o Pink Freud. Adicione a essa egotrip sua história de vida pessoal, tendo perdido o pai para uma guerra, e o amigo e líder dos primódios do Floyd, Syd Barrett, para a loucura causada pelo uso abusivo de drogas alucinógenas.


Listo aqui o que há de realmente diferente e interessante no CD extra: o "prelúdio" (a única demo original de Roger inclusa) que é uma colagem de sons tirados de gravações da Vera Lynn - que viraria tema para uma composição original incluída no LP ; "Teacher Teacher" (retrabalhada como "The Hero's Return" em The Final Cut de 1983), "Sexual Revolution" e "Backs to the wall", faixas deletadas do disco original, lançado em novembro de 1979, além das duas contribuições de David Gilmour (fora "Run Like Hell") com trechos inteiros completamente diferentes: "Young Lust" e "The Doctor" (que virou "Comfortably Numb"). Isso não quer dizer que as outras faixas são dispensáveis. É incrível como The Wall é um trabalho onde os detalhes são tão importantes quanto as melodias ou solos de guitarra. Várias músicas que conhecemos de cor e salteado aparecem em versões idênticas... até um arranjo no meio ou final da música aparecer e você perceber que o produto final foi o resultado de várias tesouradas para incluir no disco duplo o que havia de mais essencial no repertório e dentro de cada música. Mérito da dupla Waters-Gilmour que assinam a produção junto a Bob Ezrin (um cara que tem no currículo o Berlin de Lou Reed e Destroyer do Kiss). Além destes, um nome aparece como co-produtor: James Guthrie. Esse engenheiro de som foi tão importante para este trabalho (que realmente tem um som só seu, extremamente peculiar), que foi chamado para produzir o disco seguinte, The Final Cut (o canto de cisne de Roger Waters à carreira Floydiana), e é um dos responsáveis pela remasterização de todo o catálogo relançado em 2011. Guthrie também foi recrutado para a transposição de The Wall de um trabalho de estúdio para show ao vivo. Gilmour, que não raramente batia de frente com as decisões egoístas do líder assumiu a direção musical do show, sendo responsável por contratar e ensaiar os músicos extras e de coordenar toda a equipe durante o espetáculo.

IS THERE ANYBODY OUT THERE? é o nome desta preciosidade fotografada ao lado. Todas as fotos seguintes são do mesmo box, que são registros tirados da turnê The Wall entre 1980 e 1981. Foram somente 27 shows, ou seja, se você estava em um deles pode se considerar um 'lucky bastard' só por ter estado presente. Roger Waters reviveu o mesmo conceito nos anos 80 e mais recentemente com uma turnê, mas nada se compara à experiência original. Na caixa "Immersion" tem um DVD que traz uma ou duas faixas em vídeo, mas a dura realidade é... show completo em alta definição, sem chance! Dá pra arriscar alguns registros de filmadora postados no Tubo, mas o que mais aproxima fidedignamente da experiência é esse CD duplo, que também foi remasterizado e incluído na tal da imersão. Para sorte de quem adquiriu o lançamento original (o meu comprei em Maceió, circa 2001) o livreto é recheado de ótimas fotos em papel especial, depoimentos dos 04 membros e também de James Guthrie, um "Behind The Wall" (antes do doc) com detalhes da produção... ou seja material suficiente para atestarmos a grandeza do projeto.

Confesso que tinha ouvido poucas vezes os CDs ao vivo, afinal, como colocado no início do post, The Wall é daqueles discos que simplesmente não me dava vontade de ouvir, por eu saber exatamente de onde vem e pra onde vai. Lógico que ao adquirir o CD triplo remasterizado eu logo revisitei o ao vivo, e não me arrependi. É mais uma luz na evolução do repertório. Há músicas no set list do show que não estão presentes no disco de estúdio, nem nas demos "in progress". Nos textos mencionados, a gente aprende que realmente tudo foi uma questão de escolha de prioridades e, claro, devemos lembrar da limitação do vinil em relação ao tempo de cada lado dos LPs. Músicas como "What Shall We Do" (cuja letra havia sido impressa no vinil original!?!) e "The Last Few Bricks" (um instrumental que une vários temas do disco 1, antes de "Goodbye Cruel World") dão maior linearidade à narrativa musical, ao passo em que a gente entende que a exclusão delas não atrapalhou em nada o entendimento da obra lançada em 1979. E, assim como nas demos que conheci agora, esse novo gás em "Is there anybody out there" me fez perceber outros detalhes que diferem as versões ao vivo das de estúdio. Não são poucas as músicas que tem partes instrumentais extendidas (basicamente para solos), como a jam em "Another Brick in the Wall Pt. 2". Outras como "The Show Must Go On" contém uma estrofe completamente nova. Ou seja, ela devia existir desde sempre, porém a faixa foi encurtada no disco, por razões já especuladas.

Resumo da ópera: The Wall ao vivo é a famosa "ultimate experience": não dá pra ficar melhor que isso (quer dizer, o áudio remasterizado deve ter melhorado o que já era bom)...
Nas fotos, dá pra ter uma boa ideia do que era essa experiência do ponto de vista da plateia: até o final do primeiro set o muro ia sendo construido. No segundo set, várias brincadeiras eram feitas para aproveitar o 'cenário', como Roger cantando no que seria o quarto do personagem Pink, ou David solando "Comfortably Numb" do alto do muro... Impossível ficar indiferente também às animações feitas por Gerald Scarfe, tão boas que se tornaram parte essencial do filme de Alan Parker. As animações eram projetadas no muro, claro. Melhor telão, impossível. ( 0:
Então tá, vamos ao que interessa, em mp3 320 kbps, começando pelo disco original remasterizado:

CD 1
CD 2
CD 3 (Work in Progress)
Pt. 1
Pt. 2
E então temos o original Is there anybody out there?, não-remasterizado, ou seja, essa NÃO é a versão presente na edição Immersion do The Wall. Já tem na net? Fiquei com preguiça de procurar, e quis com esse post compartilhar exatamente o que fez minha cabeça nas últimas semanas...

The Wall Live 1980-1981

CD 1
CD 2
Post-scriptum (elocubrações sobre o que veio depois): The Wall é tão marcante que enterrou de vez uma banda que já assumiu que vivia uma crise desde o estouro de The Dark Side of The Moon, lançado em 1973. As sessões de Wish You Were Here e Animals já foram tensas, culminando na demissão (!) do incomparável Richard Wright, que numa atitude de extrema hombridade (sorte nossa) fez questão de ir até o fim das gravações de The Wall e de sair em turnê como músico contratado (!???) da banda-loucura de Waters. E o que veio depois? Uma grande viagem de Roger chamada de "Requiem for a Post-War Dream" ou simplesmente The Final Cut. Um disco do Pink Floyd sem Richard Wright? Give me a break. Racionalizando: The Wall é tão grandioso que engoliu o Pink Floyd em seu próprio vórtice. A serpente mordeu a própria cauda (ou qualquer metáfora semelhante). O caminho traçado por The Wall nunca deveria ter sido repetido, o que mais ou menos é a única maneira de justificar a existência do Final Cut. E que disco estaremos discutindo daqui a mais 30 anos? The Final Cut? Acho improvável, mas The Wall será para sempre redescutido, reouvido e reassistido...


sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Wilson Simonal na Odeon [1961-1971]

Caixinha supimpa. O brother comprou, e além de eu recomendar a compra a quem pode (nada como um projeto gráfico decente para cada Cd e um livreto altamente informativo), me senti impelido a compartilhar o som magistral que invadiu minha casa. Enquanto devorava cada novo álbum, postava no mediafire, e tuitava o respectivo link. Terminado o trabalho, seguem todos os links.
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Ao invés de me meter a analisar toda a obra, me recolho à minha insignificância e me junto a toda uma população brasileira sem memória. Não sabia que Simonal foi em todos os sentidos o maior cantor desse país. Só mesmo uma caixa dessas e o filme "Simonal - Ninguém sabe o duro que dei" para colocar em perspectiva o que sua incrível trajetória representa para a música brasileira. Ascenção e queda, como nos melhores contos de heróis, a carreira dele é tão absurdamente brilhante em seu topo e tão fundo-do-poço no ostracismo pós 71 que ter sua fase de glória relançada e remasterizada é mais do que merecido. É necessário para nos dar um pouco da tal memória perdida. Necessário lembrar que nem sempre música (extremamente) popular é de mau gosto. Que arranjos sofisticados não só se enquadram no jazz ou na elitista MPB. É só acompanhar os brilhantes arranjos dos maestros Lyro Panicalli, Erlon Chaves, Eumir Deodato e Cesar Camargo Mariano, esse último atuando também como pianista do Som Três (ao lado de Sabá e Toninho Pinheiro), trio que acompanhou Simonal em mais da metade desta discografia. Sofisticação a serviço da boa música, que chegou num ponto (a chamada "pilantragem") que flertava com músicas folclóricas, dando um ar popularesco à sua música, porém sempre em arranjos certeiros e um swing irresistível. E a voz... que voz!! Não é só uma aula, é uma humilhação à toda uma geração de pretensos cantores de música popular brasileira. Se tudo isso não fosse suficiente, a gama de compositores gravados por Simonal dá uma ideia de sua versatilidade e bom gosto no repertório: Carlos Lyra, Tom Jobim, Vinicius, Antonio Adolfo, Edu Lobo, Jorge Ben, Silvio César, Marcos Valle, Gil e Caetano (engatinhando como compositores), Chico Buarque, além da marca pessoal de Carlos Imperial, um dos arquitetos da "pilantragem".

É o tipo de artista que dá pra dizer sem medo: leia o livro, veja o filme, e ouça cada disco. Depois tente pensar se já houve cantor maior que Simonal. Não há!

(Clique em cada capa para um link diferente. Boa música para as pessoas de bem!)


















segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Unfinished Music No.2: Life With The Lions [1969]

O novo lançamento da Zapple Records saiu apenas 7 dias após o Electronic Sounds de Harrison. O título é uma referência ao famoso programa da rádio britânica (Life with the Lyons) que John Lennon costumava ouvir com seu tio George, quando garoto em Liverpool. Claro que a mudança de uma letra continha um ácido comentário sobre a rejeição geral que sua nova parceira musical sofria na pele em relação aos outros Beatles, e em todo o lugar onde passava. A foto da contra-capa é peculiarmente ilustrativa, mostrando o momento em que uma "fã" arranca um fio de cabelo de Yoko, num momento já difícil - o casal estava sendo levado à delegacia, acusados de porte de maconha (incidente que perseguiria-os por muitos anos a frente em Manhattan). Sentindo-se o próprio "Daniel na cova dos Leões", a capa mostra outro momento difícil, quando Ono perdeu o que seria o primeiro filho do casal (John Ono Lennon II, acredite), e o pobre MBE teve sua cama levada após um dia em que estava ao lado da paciente. "No Bed for Beatle John", a peça, é exatamente sobre isso.

Enquanto Two Virgins era espontâneo em sua experimentação com gravadores em um mesmo espaço, como uma espécie de suíte durando uma noitada regada a drogas, o No. 2 da série é feito de faixas sem aparente relação umas com as outras. O resultado é mais cerebral ou, se preferir, mais chato. Há algum grau de interesse na longa faixa que toma todo o lado 1, "Cambridge 1969", primeiro por ser uma gravação ao vivo, uma das primeiras performances do casal, em março daquele ano. Descontada a gritaria interminável, o trabalho de microfonia da guitarra de John é bastante interessante, especialmente quando o baterista John Stevens responde com os pratos (e a essa altura já estamos beirando os 20min dos mais de 26...). Os universitários de Cambridge não acreditaram que um Beatle pudesse fazer uma performance tão avant-garde, já os que conheciam Ono como artista plástica não devem ter se espantado tanto... Lá pro fim da peça podemos ouvir John Tchicai no saxofone soprano, o que contribui para o clima free-jazz, mas insisto que os berros de Yoko infelizmente tomam demais as atenções do que poderia ser uma grande jam session.
O lado 2 do vinil original foi gravado em fita ainda em 1968, exatamente durante a estadia do casal no hospital Queen Charlotte. A citada "No Bed for Beatle John" é Yoko a capella, em uma melodia de sabor oriental (japonesa, imagino). Ao mesmo tempo pode-se argumentar que seu canto (e o contracanto de John, ao fundo) lembram o Canto Gregoriano dos monges da Idade Média. Isso dá o que pensar sobre o paradigma Ocidente X Oriente, mas vou deixar a brecha para outro post... "Baby's Heartbeat" é o rebento ainda com vida intra-uterina, num tipo de gravação que seria imitado por Max Cavalera no disco Chaos A.D. do Sepultura. Pelo menos Max foi mais sensato, e usou os batimentos cardíacos do filho como introdução do disco, apenas. "Two Minutes Silence" é exatamente isso. Hoje em dia é fácil "desprogramar" a faixa, mas pensemos no disco de vinil. Lá no meio do lado 2 você é obrigado a "ouvir" 2 minutos de silêncio. A ideia deve muito a John Cage, claro, mas devemos lembrar que o casal perdeu o bebê, então a faixa serve como um luto, interrompendo os batimentos cardíacos que martelam por 05 min. Fechando a bolacha, "Radio Play". Parece que Joko Nono & Cia. estavam mesmo dispostos a imprimir uma estética Cageana à sua produção alternativa. Só que diferente das experiências com rádio do outro John, o casal limitado a um quarto de hospital, gravou o som do dial do rádio indo pra frente e para trás, enquanto podemos ouvir Lennon ao telefone, conversas triviais, aquela coisa doméstica. A faixa dura 12 min (...).
Por fim, temos os bonus tracks incluídos na versão em CD. "Song for John" é outra balada folk, assim como "Remember Love", bônus em Two Virgins. "Mulberry" traz como novidade o que parece ser um dobro, tocado com slide por Lennon. E os vocalizes de Yoko são menos agressivos, provavelmente devido a seu estado de saúde. Ela bem que podia ter estado mais doente durante outras sessões dos dois.. Brincadeiras à parte, melhor citar o sábio George Martin: "No Comment"!

Aqui (.mp3, 192 kbps).

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Sn00ze e Plástico Lunar no Capitão Cook


Para acabar o ano de bem com o Rock, uma ótima ideia para uma festa se transformou em um evento que vai botar o Cook pra ferver. Tudo começou com um combo do Snooze tocando no casamento do amigo Ian Moreira. Com o sucesso do repertório anos 80 com Beatles, o pessoal ficou com "gosto de quero mais". Rapidamente já tínhamos um novo show para divulgar, com os comparsas do Plástico Lunar, mostrando suas novas composições e os clássicos do cancioneiro psicodélico sergipano.
No repertório do Snooze, prometemos cobrir toda a carreira (uma demo, 03 CDs) e tocar novo material, que estamos aos poucos dando forma para poder gravar.
Além disso, dois dos produtores da festa irão mostrar seus talentos como DJs, numa batalha que promete não deixar ninguém entediado antes, entre e depois das bandas.
Quer mais motivo para festejar??
Até quinta!

Matéria do portal da Infonet aqui.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Exercício de composição pós-tonal

Chega ao fim mais um período de faculdade, o 6° para mim. Um dos trabalhos que tive especial interesse em fazer nessa reta final (entre inúmeros relatórios de estágio que entreguei com um dia de atraso) foi da disciplina Estruturação VI, ministrada pelo Prof. Hermilo Santana. Essa matéria é basicamente composição, e marcou muito os alunos das primeiras turmas do curso de Licenciatura da UFS, por ser a cadeira ocupada anteriormente pelo Prof. Dr. Hugo Ribeiro, atualmente na UNB. Quem conhece Hugo deve imaginar o porquê. Como amigo, o ex-guitarrista e/ ou tecladista do Warlord é até um doce de pessoa (em seu jeito peculiar de ser), mas como professor, ele é capaz de deixar traumas, ao mesmo tempo que é unanimidade no quesito competência profissional. As primeiras turmas de Estruturação Musical colecionam histórias ora bizarras e ora hilárias de Hugo à frente como professor. Já é lendária a ocasião em que, aplicando uma prova - onde a essência era compor -, o professor tocou violão, cantando com sua "linda" voz e, não satisfeito, acionou o micro system com alguma banda de heavy metal, sem se preocupar com os protestos dos alunos. Seu nível de exigência incluía a leitura de no mínimo 02 livros por semestre, livros que não necessariamente refletiam seu conteúdo na disciplina, porém serviam como completo, uma espécie de curso paralelo de erudição musical que a gente era obrigado a passar, só por sermos alunos dele.
Nesse momento então que encerro o ciclo começado em 2008, quando entrei no curso, gostaria de compartilhar a composição pós-tonal, que acabou sendo a avaliação final do Prof. Hermilo.
Esta é uma peça para piano baseada na Teoria dos Conjuntos. Eu já havia tido uma introdução a esse universo através do Prof. Bordini, que esteve aqui no II SISPEM, e sinto não ter tido a oportunidade de ouvir de Hugo sua maneira de pensar a música pós-tonal. Quem sabe um dia...

Os conjuntos utilizados foram:
- 0, 1, 2, 8 (que formam a data de aniversário de minha filha) - Dó, Dó#, Ré e Sol#
- 0, 1, 7, 11 (sub-conjunto do anterior, com duas notas em comum) - Dó, Dó#, Sol e Si
- 2, 6, 7, 8 (transposição do anterior, uma quinta justa acima) - Ré, Fá#, Sol, Sol#


O título "há 05 anos atrás", em inglês, é uma referência ao nascimento da Juju, cujo aniversário aconteceria na semana que entreguei o trabalho... Não sei dizer se ela gostaria de ouvir o resultado, mas ela me viu compondo e também quis participar. Diferente do que se pensa no senso comum de que "qualquer nota tá valendo" para esse tipo de música (que não é atonalismo livre), o controle tem que ser absoluto. Segundo o professor Hermilo, o que acontece é que o resultado sonoro desse tipo de música em geral é "frio", como uma música não dotada de emoção, por ser altamente cerebral e calculada. O fato é que gosto é uma coisa estranha, mas juro que prefiro ouvir uma peça de Schoenberg das mais medonhas ao barulho que ecoa das rádios comerciais, que muita gente usa como "música ambiente", condicionados pelos programadores, que por sua vez são guiados pela indústria. Não é música para toda hora, mas ouvidos atentos poderão achar fortes emoções em Stockhausen, Ligeti ou Xenakis, ou tantos outros. It's just music.

Em tempo: http://www.catm.co.uk/

Enjoy!

5yearsago
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domingo, 24 de outubro de 2010

Electronic Sound [1969]

Em 1969, o mundo ocidental vivia no mundo da Lua. Melhor dizendo, a corrida espacial entre EUA e URSS inspirava não só músicos, poetas e cineastas, mas era parte do vocabulário do cotidiano, visto que tudo que os yankees consideram oficialmente relevante parece reverberar culturalmente. Um ano antes, Stanley Kubrick através de seu "2001: Uma Odisséia no Espaço", revelou o que o jazzista doidão Sun Ra sintetizaria em alguns anos: "space is the place".
Mas pera ae, a capa desse disco aí ao lado diz "produced by George Harrison", né o cara dos Beatles? É. Ele fez um disco de música eletrônica (gargalhadas histéricas). "Electronic Sound" é mesmo uma viagem, bixo. Nas palavras do pai da criança: "pode-se chamar de avant garde, mas uma descrição mais adequada seria (como diria meu velho amigo Alvin) pista avant garde!". Entendeu?

Este foi um dos dois lançamentos da Zapple, subsidiária da Apple Corps., empresa fundada pelos besouros um ano antes. John Lennon (sua futura conexão com Zappa me deixa intrigado...) era o principal entusiasta dessa vertente vanguardista, tendo sido responsável pela inclusão de "Revolution #9" no álbum branco. Apesar de Paul brincar com "música séria" bem antes (vide post sobre o Revolver), nessa época ele preferiu ficar de fora das maluquices, e George resolveu dar sua contribuição (ele também havia colaborado em "Revolution #9", ao contrário de Paul). Só que este "Electronic Sound" tem pouco ou nada ver com a série Unfinished Music de John & Yoko, estando estritamente presa a seu título. Como disse, é um disco de música eletrônica. Trata-se de duas faixas (cada uma ocupando um lado do disco) onde o experimento sonoro é simplório ao ponto de podermos visualizar o cabeludo brincando de cientista maluco com seu Moog. E como todo sintetizador, dá pra fazer um bocado de barulho. "Under the Mersey Wall", a primeira faixa parece definitivamente trilha sonora de filme espacial. Há de aparecer algum doido para sincronizá-la com 2001! Já "No Time or Space" é bem mais tensa, e menos interessante. Também é intenso o uso do chamado "ruído branco", que foi aproveitado na introdução de "I Remember Jeep", presente no All Things Must Pass. Curioso mesmo é que Bernie Krause, creditado como assistente da sessão realizada na California em Novembro de 68, processou Harrison alegando que o que foi lançado ali no lado 2 consistia de sua própria demonstração de como operar o Moog III. Verdades ou mentiras, o fato é que a outra gravação data de fevereiro do novo ano. Georginho juntou 1+1, pintou essa lindeza de capa, e pronto, virou vanguardista (rs.). E antes de julgar, porque não ouvir? Encerro traduzindo uma citação que figura no encarte da obra (opa, duplo sentido?):

"Existe muita gente por aí fazendo um monte de barulho... aqui vai um pouco mais" (Arthur Wax)

Aqui (.mp3, 128 kbps)